Água engarrafada custa caro ao bolso e ao planeta

Pesquisa canadense revela que conveniência, acesso e publicidade impulsionam consumo global, enquanto impactos socioambientais seguem invisíveis

Foto: Reprodução/
Ecodebate

Mesmo com água potável saindo da torneira por centavos, indústria bilionária cresce 10% ao ano no Brasil e transforma garrafa PET em símbolo de uma insanidade ambiental silenciosa

EcoDebate – A indústria da água engarrafada é uma das atividades que mais crescem no mundo, mesmo diante de crises financeiras globais. No Brasil, movimenta 9 bilhões de litros por ano, com crescimento anual de 10%. Os números impressionam, mas por que continuamos comprando algo que já chega tratada às nossas casas por menos de R$ 0,08 (com impostos) o litro?

Uma pesquisa recente da Universidade Concordia, no Canadá, jogou luz sobre esse fenômeno. Os pesquisadores identificaram três forças que impulsionam o consumo global: a conveniência, o acesso e a publicidade.

Não se trata apenas de sede. Trata-se de uma construção cultural cuidadosamente alimentada por décadas de marketing competente, que fixou no inconsciente coletivo o mito de que a água engarrafada é mais segura e saudável.

Mas será mesmo?

A água tratada de torneira é captada em mananciais superficiais, passa por filtragem e recebe cloro. Isso a torna potável. É verdade que o tratamento não elimina eventuais contaminações por metais pesados e agrotóxicos, e que o sistema de distribuição pode sofrer com tubulações antigas ou caixas d’água malcuidadas.

Ainda assim, a potabilidade da água distribuída pelas concessionárias é rigorosamente acompanhada pelos órgãos ambientais.

Já a água mineral natural vem de fontes subterrâneas e não recebe qualquer filtragem ou tratamento. Em geral, contém mais sais minerais. Essa é, na prática, sua única vantagem real sobre a água tratada.

Aquíferos e fontes subterrâneas também podem ser contaminados por metais pesados e agrotóxicos. E, sem cloro, a água mineral pode abrigar bactérias. Não são raras as notícias de fontes e engarrafadoras interditadas por contaminação.

Ou seja, o mito da pureza superior não se sustenta.

Em termos ambientais, a conta é ainda mais pesada. Segundo a Universidade de Queensland, na Austrália, os efeitos do uso de água engarrafada são extensos.

A maioria das garrafas plásticas é fabricada com tereftalato de polietileno virgem, o PET, composto derivado de combustíveis fósseis não renováveis. Sua produção incentiva a exploração de petróleo, com todos os impactos associados.

O consumo de energia também é brutal. Produzir água engarrafada exige de 5,6 a 10,2 megajoules por litro. A água da torneira requer cerca de 0,005 megajoules por litro no tratamento e distribuição.

A diferença é de mais de mil vezes. E isso sem contar a energia gasta na fabricação da garrafa, na limpeza, no enchimento, na vedação, na rotulagem, na refrigeração e no transporte até o consumidor.

Depois de todo esse percurso, resta o resíduo. No Brasil, pouco mais de 55% das garrafas PET são destinadas à reciclagem. O restante, bilhões de unidades, entope rios e mananciais ou sobrecarrega aterros sanitários. Cada garrafa que levamos à boca carrega uma cadeia de impactos que raramente enxergamos.

Não existe consumo sem impacto ambiental. A diferença entre consumo responsável e consumismo alienado está justamente na consciência desse impacto e na busca por sustentabilidade. A água engarrafada, onde a rede pública é tratada e potável, é essencialmente insustentável.

Ela não é mais segura. Não é mais saudável. É muito mais cara. E seus impactos ambientais são significativos. Então, consumir por quê?

Talvez a resposta esteja menos na sede e mais na força de um marketing que transformou conveniência em necessidade. Reconhecer esse mecanismo é o primeiro passo para escolhas mais conscientes. Beber água é essencial. Escolher de onde ela vem, também.

Referência:

The plastic pulse: How global water consumption behaviors shape exposure to nano- and microplastics from single-use plastic water bottles
Sarah Sajedi, Chunjiang An
Journal of Cleaner Production
https://doi.org/10.1016/j.jclepro.2026.148459

 

 

 

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