Os Carlos da vila de utopia e a trajetória de uma crônica
Panorama de Itabira, com a torre de sinos da Igreja N.S. do Rosário dos Pretos. Pintura de Jayme Guerra (irmão de minha amiga Liliani), de Itabira
Arte: Jayme Guerra
Os jornais, Minas Gerais e A Tribuna (BH-MG), publicaram em 07.10.1933 – especialmente para o centenário de Itabira do Mato Dentro, – a crônica “Centenário da Vila da Utopia”, assinada por Carlos Drummond de Andrade. Belíssimo presente!
Dois anos depois, em 28-04-1935 (Drummond já vivia no Rio) a crônica “Vila da Utopia” é impressa na primeira página, da 2ª. Seção, de O Jornal, Rio; com ilustração de Santa Rosa o poeta mexe no título “Vila da Utopia” não altera o texto que se inicia na página 1, e termina na página 2 como “Vila de Utopia”. Interessante coincidência andradina é que, na mesma página, lado a lado, está “Uma sonata de Camargo Guarnieri”, de Mário de Andrade.
A crônica é novamente publicada no Diário de Pernambuco (PE) em 12.05.1935, sem alteração do texto e com o título de “Vila de Utopia”.
Nove anos depois, a crônica reaparece na primeira edição do livro “Confissões de Minas” (1944) com o título simplificado “Vila de Utopia”, e pequenas alterações no texto e na forma. O texto da primeira publicação foi escrito por um moço com 31 anos de idade que vivia geograficamente pertinho do Mato Dentro. Em 1944 Drummond tinha 42 anos, a sua filha Maria Julieta era uma garota de 16 anos e, o modernista vivia a 550 km de Presidente Vargas. |Itabira do Mato Dentro|

Depois de 36 anos, à margem das publicações citadas, em outubro de 1980, a crônica aparece no jornal O Cometa Itabirano com o título, “Vila da Utopia”. Na segunda dentição de O Cometa, editoria de nosso Marcelo Procópio, a crônica é novamente publicada.
Depois, nada! Nonada!
No século XXI, 37 anos depois, a crônica “Vila de Utopia” reaparece na imprensa, em Itabira, na edição de estreia da Revista Eletrônica Vila de Utopia, em 14.05.2017, e ainda na mesma revista, em 26.10.2017. Na primeira publicação, às 17h21min, o leitor Edson comenta: “Esse texto é maravilhoso, diz muito do que se percebe de Itabira – especialmente a quem não é de Itabira”.
A publicação aqui, agora, da crânica “Centenário da Vila da Utopia”, é antecedida pela apresentação do livro Confissões de Minas, de Drummond, sempre Drummond. “Escrevo estas linhas…” explica a conjuntura mundial em que foi escrita a crônica “Centenário da Vila da Utopia”.
A organização e a apresentação da crônica, “Centenário da Vila da Utopia” eu dedico especialmente a outro Carlos, também jornalista, mas não é poeta. É para o nosso Carlos Cruz, que muitos ainda chamam de Carlinhos.
Vivas para os Carlos de Itabira!
(Maria Cristina)
Confissões de Minas
Carlos Drummond Andrade
Escrevo estas linhas em agosto de 1943, depois da batalha de Stalingrado e da queda de Mussolini. Meu livro vai para o linotipista. Não quis que se compusesse sem acrescentar-lhe algumas palavras, menos de explicação ou desculpa do que de exame da conduta literária diante da vida.
É um livro de prosa, assinado por quem preferiu quase sempre exprimir-se em poesia. Esse suposto poeta não desdenha a prosa, antes a respeita antes de furta-se a cultivá-la. Seria inútil repisar o confronto das duas formas de expressão, para atribuir superioridade a uma delas. Mas a verdade é que se a poesia é a linguagem de certos instantes, e sem dúvida os mais densos e importantes da existência, a prosa é a linguagem de todos os instantes, e há uma necessidade humana de que não somente se faça boa prosa como também de que nela se incorpore o tempo, e com isto se salve esse último.
Não há mais prosadores, entre nós, que tenham consciência do tempo, e saibam transformá-lo em matéria literária. Frequentemente a literatura se faz à margem do tempo ou contra ele, – seja por incapacidade de apreensão, covardia ou cálculo. Daí o vazio e desconforto do texto literário, com a insatisfação que ele desperta em cada vez mais descrentes leitores. E pouco importa que haja muitos leitores, uma vez que não amem o autor nem se confessem devedores de alguma coisa tirada ao livro.
Este livro começa em 1932, quando Hitler era candidato (derrotado) a presidente de república e termina em 1943, com o mundo submetido a um processo de transformação pelo fogo. Os que tiveram a sorte de viver em tal período serão bem mesquinhos se se embriagarem com a vaidade do expectador de um drama exemplar ou com a do passageiro do transatlântico de luxo. Eles próprios terão de confessar-se transformados, mais sérios e esclarecidos, mais determinados quanto aos problemas fundamentais do individuo e da coletividade. Não lhes bastará fazer uso contínuo da palavra “cultura” ou da palavra “justiça”, mas antes devem contribuir com tudo o que tenham de bom para que essas palavras assumam o conteúdo verdadeiro ou, então, sejam varridas do dicionário.
Declaro honestamente que falta a meu livro isso que para mim, neste domingo de agosto, é o mais precioso de tudo: falta-lhe o tempo, com suas definições. As páginas foram-se escrevendo mais para contar ou consolar o indivíduo das Minas Gerais, e dizem bem pouco das relações desse indivíduo com o formidável período histórico em que lhe é dado viver. Mesmo assim, não as desprezo. Dou-as como um depoimento negativo, indicando aos mais novos que devem formular depoimentos positivos, autênticos e até mesmo impiedosos, se for o caso.
Já não tenho medo de escravizar-me à vida, e acho que uma sutileza que não resista à prova da convivência mais larga é apenas um vício. E digo aos rapazes: Rapazes, se querem que a literatura tenha algum préstimo no mundo de amanhã (o mundo melhor que, como todas as utopias, avança inexoravelmente), reformem o conceito de literatura. Já não é possível viver no clima das obras primas fulgurantes e… podres, e legar ao futuro apenas esse saldo dos séculos. Reformem a própria capacidade de admirar e imitar, inventem olhos novos ou novas maneiras de olhar, para merecerem o espetáculo novo de que estão participando.
Se lhes disserem que nada disso é novo e que já houve guerras, e depois armistícios e depois outras guerras, etc., etc., não levem a sério essa falsa experiência histórica, que impede qualquer melhoria da história. Se tudo foi dito, então o remédio é o suicídio sob qualquer de suas formas, inclusive a do beato e precário contentamento de existir na época do rádio e das roupas de vidro. Prefiro acreditar que nada foi feito nem escrito nem descoberto. Que estamos começando a nascer, e que os gênios nacionais e estrangeiros não foram ainda inventados. Porque antes negá-los todos do que viver esmagados por eles, e como pesam! de todo peso da aceitação e da facilidade.
Não estou, pois dentro deste livro de retalhos, e sim fora dele. Mas sinto que foi um caminho pelo qual cheguei a uma excelente cidade, de ruas largas e populosas. Ele abriu minas gavetas secretas. Libertou-me de alguns fantasmas particulares. Agiu. Hoje não escreveria quase nada do que aí se contém, mas por isso mesmo a sensação de desprendimento e liberdade é maior. Vamos andando.
***

Centenário da Vila da Utopia
Carlos Drummond de Andrade
Uma casa
A casa era grande, na rua Municipal: dois andares que subiam cheios de porta e sacadas, oferecendo a frontaria sem ornatos, maciça, impressionante, à admiração dos que passavam. Dentro dela, olhando para o pátio central, outro sobrado, este menor, guardava cômodos inúteis; parecia um pombal. Em 1911 esse sobradinho desapareceu, mas a casa não diminuiu de tamanho, os passos ecoavam ainda nos mesmos imensos corredores, nas mesmas salas infinitas. E nela existiam desvãos que nós nunca havíamos explorado. Por baixo da escada, por cima da copa, aqui, ali, o mistério abria-nos os seus lares. Mas nós crescíamos depressa e não púnhamos reparo na casa grande.
Sabíamos que a casa tinha muitos anos, que ali morreram avós, tios e primos; em tal quarto nasceu meu pai, naquele outro meu avô estendeu, até a morte, uma perna baleada nas últimas eleições sangrentas do município; mas nós circulávamos livremente através do ar coalhado de lembranças e eflúvios familiares, de pesadas e obscuras memórias dos coronéis e das damas antigas, dos vestidos de dona Joana e das festas do comendador Paula Andrade.

Com a mesma inconsciência natural nós crescemos e nos dispersamos: um dia a casa foi vendida, e então um amargor sem aviso prévio, uma angústia nos subiram à boca, aos olhos; verificamos como aquela casa fazia parte de nossa vida, e como essa vida ficava sem explicação, despregada das enormes paredes azuis que o Andrade dominador salvara da ruína para compor com elas o nosso quadro infantil e humano.
Tinha setenta, oitenta anos… Nunca soubemos ao certo a idade daqueles barrotes veneráveis. Ninguém sabia. E não pedíamos informações. Insisto em dizer que a vida era inconsciente e calma. O pico do Cauê, nossa primeira visão do mundo, também era inconsciente, calmo. Na nossa rua apenas passavam as pessoas que iam assistir à chegada das malas no Correio (espetáculo diário e maravilhoso, pelo humorismo que nele sabia pôr o velho Fernando Terceiro); as pessoas que iam reconhecer firmas no tabelião Barnabé; e algum vago transeunte, em demanda da rua de Santana, algum vago moleque, que ia atirar pedras na casa da Didina Guerra (às vezes, eu aderia cinicamente a esse moleque).
Nos dias de júri, a curiosidade das tragédias e das humilhações alheias punha um enxame de criaturas no Fórum, perto da nossa casa; mas nós íamos caçar passarinhos ou tomar banho na praia do Rosário, onde uma bica nos dava a impressão de uma catarata doméstica, submetida aos nossos desejos. Como foi que a infância passou e nós não vimos? Até hoje interrogo aquele menino que por quatro anos foi um aluno deploravelmente bom do grupo escolar, e não o sinto nem aprumar-se, nem enriquecer-se de experiências vitais, nem desprender-se do cenário familiar. No entanto, esse menino existiu, sofreu, brigou, amou, desesperou, cresceu.
Vinte anos depois, voltando à cidade, não encontrei vestígio algum da aventura individual. Só a velha casa continuava espetacularmente azul na rua deserta, de onde haviam desaparecido o tabelião Barnabé e o coletor Quinca Custódio, mas onde restava o inesgotável Fernando Terceiro, ainda ereto, ainda de barbas a Francisco José, fazendo sempre o comentário sarcástico dos acontecimentos e dos homens, inclusive o seu vizinho e também humorista Minervino Bethônico.
A eterna cidade
A nossa vida subtilizara-se. A cidade, entretanto, continuava o mesmo aglomerado de casas desiguais, nas ruas tortas grimpando ladeiras. Um silêncio grave envolvia todas essas casas e impregnava-as de uma substância eterna, indiferente à usura de materiais e das almas. Dessa maneira ela se preserva da destruição. Hoje, amanhã, daqui a cem anos, como há cem anos atrás, cem anos, como há cem anos atrás, uma realidade física, uma realidade moral se cristalizam em Itabira. A cidade não avança nem recua. A cidade é paralítica. Mas, de sua paralisia provêm a sua força e a sua permanência. Os membros de ferro resistem à decomposição. Parece que um poder superior tocou esses membros, encantando-os. Tudo aqui é inerte, indestrutível e silencioso. A cidade parece encantada. E de fato o é. Acordará algum dia? Os itabiranos afirmam peremptoriamente que sim. Enquanto isso, cruzam os braços e deixam a vida passar. A vida passa devagar em Itabira-do-Mato-Dentro.
Se a vida passasse depressa, a estrada de ferro já teria posto os seus trilhos na orla da cidade; à sombra do Cauê, uma usina imensa reuniria dez mil operários congregados em cinquenta sindicatos, e alguma coisa como Detroit, Chicago, substituiria o ingênuo traçado das ruas do Corte, do Bongue, dos Monjolos. Mas para que tanta pressa? Tudo virá a seu tempo e se não for agora, como não foi em 1898, quando o padre Júlio Engrácia dizia ironicamente que “depois que pelos diversos estudos ficou a esperança que passará na cidade uma via férrea, tem havido animação em construir; ao menos houve essa vantagem” – algum dia há de ser, e tudo estará bem. Na consumação dos séculos se consumarão também os nossos desejos, e a alma alcançará a bem aventurança eterna, que é o sono no regaço de Deus. Até lá, vivamos com calma.

Utopia
É curiosa a vida de Utopia, posta na vertente da montanha venerável e adormecida na fascinação do seu bilhão e quinhentos milhões de toneladas de minério com um teor médio superior a 65% de ferro, que darão para “abastecer quinhentos mundos durante quinhentos séculos”, como garantia o visconde de Serro Frio. “Os números que exprimem a quantidade de minério de Itabira”, confirma o professor Labouriau, “são astronômicos; de tão grandes tornam-se inexpressivos”. Inexpressivo é bem o termo; e não encontro também outro para qualificar a minha, a nossa indiferença diante de tanta opulência inerte. Somos tão ricos, em Itabira, que não nos preocupamos com a nossa própria riqueza. O nosso patrimônio excede-nos.
Temos riqueza para dar ao mundo inteiro e ainda sobraria para quatrocentos e noventa e nove mundos possíveis. Se oferecêssemos a cada habitante do planeta a insignificância de uma tonelada de ferro, quase todo o rebanho humano estaria servido, pois a cifra total não vai além de um bilhão e setecentos milhões de criaturas. Somos perdidamente, inefavelmente milionários. No entanto, a arrecadação da prefeitura, em 1932, não excedeu de 216 contos (inclusive 20 contos de saldo do exercício anterior), e uma honesta parcimônia pauta a vida dessa gente ensimesmada e grave, que nada tem nem pede ao governo, e passa honradamente pelos guichês do Banco Comércio e Indústria, para emitir ou reformar as suas promissórias. Tanta riqueza em potência vem sendo, talvez, um grande mal para a vida de Utopia.
– Itabira, onde estão tuas trinta fábricas de ferro do tempo do barão de Eschwege, com seus cadinhos dotados de trompas e martelos hidráulicos, os seus fornos e as suas oficinas de armeiro, que antecederam e suplantaram em eficiência a real fábrica do Morro do Pilar?
– Onde estão, Itabira, os escravos e os faiscadores de João Francisco de Andrade e do capitão Thomé Nunes, varejando os regatos e as encostas de Santana e da Conceição e produzindo mais de sete mil oitavas de ouro, quando já a mineração declinava no Brasil?
– Que notícias me dá, Itabira, da Associação Brasileira de Mineração, último esforço da nossa gente para manter o caráter nacional dos nossos depósitos minerais, hoje entregues ao estrangeiro tão arrebentado quanto nós para explorá-los?
Os velhos
Tudo isso está longe. A minha infância já não foi frequentada pela memória desses homens e dessas preocupações. E se eu me debruçava sobre o passado, era para ouvir uma voz que cantava, toldada de álcool: Capitão Tomé – é ouro só – os herdeiros dele – são molambo só… ou para ouvir o velho Elias do Cascalho resmungar uma reza meio africana meio mística, que tinha poderes para esconjurar o demônio e curar mazelas; era mais velho do que a cidade, viera do Congo e não se aproveitava nada do que dizia.
Como você foi diferente, sá Maria, com a sua existência prestimosa e sóbria, devotada à criação de duas gerações da família e pitando eternamente o seu cachimbo, única volúpia que a singeleza de seu feitio lhe permitia! E no entanto o Cutucum, de que você veio, num dia remoto do século 19, está situado nesse distrito do Carmo, de que o padre Júlio assinalava o “descalabro social”, a “polícia fraquíssima e nula”, a “deficiência de educação e princípios religiosos”, a inclinação “a toda sorte de orgias”… Ainda vejo o corpo mirrado, sob o lenço colorido da cabeça, os dedos entrelaçados de frieiras, a boca murcha mascando mesmo quando vazia, a voz severa, mas traindo um secreto carinho, o coração aberto, numeroso… Cinquenta anos, pelo menos, da vida de Itabira desfilam diante dos seus olhos e você nem reparou neles, preocupada como estava em encher cedo o seu pote d’água, preparar cedo o almoço e o jantar da família, deitar cedo os seus filhos de criação, viver cedo, fazer tudo cedo… menos morrer, porque isso era contra o seu regulamento interno, que exigia o máximo de fervor e de humildade na devoção.
Os velhos da cidade, no meu tempo, já não podiam dizer da velha Itabira, porque eles mesmos não a haviam alcançado. As gerações anteriores, sim, desbravaram as matas no lugar onde hoje meninas da Escola Normal e professores do grupo fazem footing à noite, antes do baile no Atlético; faiscaram os córregos, plantaram – perto da água, para que pudessem rezar mais a jeito, sem perturbar a lavagem do ouro – a igrejinha do Rosário, e depois, mais no alto, a nova Matriz; fizeram discursos falando na liberdade e, como esse altivo Paulo José de Souza, “nos sentimentos americanos”; deram ao agrupamento social, ainda informe, contorno e coesão, estabelecendo em 1827 a freguesia, em 1833 a vila, em 1848 a cidade; e esses últimos foram, na história política e administrativa, os construtores da segunda e atual Itabira.
Porque a primeira Itabira, a Itabira do ouro, essa não tinha outra forma, senão a que lhe traçaram, com a ponta do pé, os desbravadores sequiosos na sua “exploração insensata e ruinosa das lavras”, de que fala Eschwege. As leis vinham da Vila Nova da Rainha, para onde ia o trabalho e o suor dos mineiros, convertidos em imposto; as bênçãos e as proibições morais vinham de Santa Bárbara, onde a igreja assentara a sua freguesia. Na encosta áspera, os pretos vibravam a picareta, mergulhavam os pés na água escassa e barrenta. Um ou outro, com extrema dificuldade, ocultava na carapinha a pedra que daria para forrá-lo. Quando o seu amo não fosse como o capitão Thomé, de quem os negros fugiam, espavoridos, para precipitar-se na mina, onde um morreu asfixiado.
Que resta dessa velha Itabira? Um mapa do sargento Bougadas, quando o povoado já sentia aproximar-se a sua elevação a vila. Procuramos, eu e Luiz Camilo de Oliveira Neto, esse mapa no Arquivo Público Mineiro, onde deveria estar, mas sumiu, como o sargento Bougadas, de que só o padre Júlio conserva o nome precário.

A terceira Itabira
Haverá uma terceira e diversa Itabira? Meu Deus, como me doeria responder sim a essa pergunta, e confessar que em 1933 o antigo menino da rua Municipal foi encontrar a sua cidade habitada por um pelotão final de velhos, que nada poderiam dizer, e por um exército de rapazes e meninas, aos quais não tinha nenhuma mensagem para dirigir. Entre aqueles velhos e estas crianças, ele passeou rapidamente a sua incorrigível inquietação de trinta anos, a sua falta de solidariedade com as coisas, a sua incompreensão do meio humano, a sua saudade, a sua disponibilidade.
E seu sofrimento foi como uma picada fina, penetrante, na carne do braço. Foi rápido. Não suportou o choque emotivo com a sua terra, e voltou na persuasão de lhe terem roubado alguma coisa ou, talvez, de ter dissipado alguma coisa. Era o problema da cidade diferente, ou do homem diferente, este recusando-se a admitir que houvesse mudado e supondo de boa-fé que a mudança fosse exterior e urbana; e a cidade não respondendo, mas impenetrável, mas inflexível, insinuado antes que a mudança devia ser humana e pessoal. Um espelho que não refletisse mais o dono; foi o cristal que se corrompeu ou foi o homem que se tornou invisível? De volta, na estrada de Santa Bárbara, essas dúvidas surgiam, cruzavam-se, desapareciam, e nenhuma resposta consolava o coração incerto.
Sofrimento itabirano
Abro ao acaso as Meditações sul-americanas, de Keyserling, e fico pensando se o autor teria diante de si o homem de Itabira, quando apontou as características espirituais do homem da parte meridional do continente. Embora dificilmente aplicável à realidade psicológica brasileira o seu conceito de “gana”, vale a pena ouvi-lo quando diz, por exemplo: “O sul-americano (o itabirano) é passivo. Ele suporta a sua vida, e não conhece outra maneira de viver. Cede pouco às influências exteriores, mas capitula incessantemente diante da impulsão interior”. “Todo ato sul-americano (itabirano) resulta do abandono a essa impulsão”. “A vida, aí, não segue uma direção, mas uma inclinação. Nada de espantoso, pois, em que, refletida pela consciência intelectual, evoque um abismo de melancolia e um abismo de cepticismo. Não se passa nada de novo. Nada serve para nada. Ninguém se pode ficar em nada. Nenhum esforço vale ser tentado”. E finalmente: “… a prodigiosa monotonia que paira, que está suspensa, por assim dizer, na fisionomia moral da América do Sul (de Itabira)…”
Dessa monotonia, o conde de Keyserling extrai um “sofrimento sul-americano”. Seria absurdo isolar, na sensibilidade mineira, um sofrimento itabirano? Julgo que não. Eu sou, Itabira, uma vítima desse sofrimento, que já me perseguia quando, do alto da Avenida, à tarde, eu olhava as tuas casas resignadas e confinadas entre morros, casas que nunca se evadiriam da escura paisagem da mineração, que nunca levantariam âncora, como na frase de Gide, para a descoberta do mundo. Parecia-me que um destino mineral, de uma dura e inelutável geometria, prendia você, Itabira, ao dorso fatigado da montanha, enquanto outras alegres cidades, banhando-se em rios claros ou no próprio mar infinito, diziam que a vida não é uma pena, mas um prazer. A vida não é um prazer, mas uma pena. Foi esta segunda lição, tão exata como a primeira que eu aprendi com você, Itabira, e em vão meus olhos perseguem a paisagem fluvial, a paisagem marítima: eu também sou filho da mineração, e tenho os olhos vacilantes quando saio da escura galeria para o dia claro.

Maneira de querer bem
Todos cantam sua terra, mas eu não quis cantar a minha. Preferi dizer palavras que não são de louvor mas que, escritas na véspera do seu centenário, indicam emoção que provocou em mim esse acontecimento histórico. Ainda assim fui itabirano, gente que quase não fala bem de sua terra, embora proíba expressamente aos outros falarem mal dela. Maneira indireta e disfarçada de querer bem, legítima como todas as maneiras. E afinal, eu nunca poderia dizer ao certo se culpo ou se agradeço a Itabira pela tristeza que destilou em meu ser, tristeza minha, tristeza que não copiei, não furtei… que põe na rispidez da minha linha de Andrade o desvio flexível e amável da linha materna.









