A palavra e a terra

Arte: Genin
Carlos Drummond de Andrade

– há 65 anos –

(Poema)

I

Aurinaciano

o corpo na pedra

a pedra na vida

a vida na forma

Aurinaciano

o desenho ocre

sobre o mais antigo

desenho pensado

Aurinaciano

touro de caverna

em pó de oligisto

lá onde eu êxito

II

Auritabirano

Agora sabes que a fazenda

se uma estrutura se desvenda,

é mais velha do que a raiz:

vem depois do depois, mais.

O que se libertou da história,

ei-lo se estira ao sol, feliz.

Já não lhe pesam os heróis

e, cavalhada morta, as ações.

Agora divisou a traça

preliminar a todo gesto,

abre a primeiríssima porta,

era tudo um problema certo.

Uma construção sem barrotes,

o mugir de vaca no eterno;

era uma caçamba, o chicote,

o chão sim, percutindo não.

III

Bem te conheço, voz dispersa

nas quebradas,

manténs vivas as coisas

nomeadas.

Que seria delas sem o apelo

à existência,

e quantas feneceram em sigilo

se a essência

é o nome, segredo egípcio que recolho

para gerir o mundo no meu verso?

para viver eu mesmo de palavra?

para vos ressuscitar a todos, mortos

esvaídos no espaço, nos compêndios?

IV

Assaí de terra firme

jurema branca esponjeira

bordão de velho borragem

tachi de flor amarela

ubim peúva do campo

caju manso mamão bravo

cachimbo de jabuti

e pau roxo de igapó

goiaba d’anta angelim

rajado burra leiteira

tamboril timbó casumbra

malícia d’agua mumboca

mulatinho mulateiro

mirapixuma pau ferro

chapéu de napoleão

no capim de um só botão

sapopema erva de chumbo

mororozinho salvina

água redonda açucena

sete sangrias majuba

sapupira pitangueira

maria mole purumã

puruí rapé dos índios

coração de negro aipé

sebastião de arruda embira

pente de macaco preto

gonçalo alves zaranza

pacova cega machado

barriguda pacuíba

rabo de emucura sorva

cravo do mato churu

morototó tarumã

junco popoca

junco popoca

biquíni biribá botão de ouro

V

Tudo é teu, que anuncias. Toda forma

nasce uma segunda vez e torna

indefinidamente a nascer. O pó das

[coisas

ainda é um nascer em que bailam

[mésons.

E a palavra, um ser

esquecido de quem o criou; flutua,

reparte-se em signos – Pedro, Minas

[Gerais, beneditino –

para incluir-se no semblante do

[mundo.

O nome é bem mais do que nome: o

[além-da-coisa,

coisa livre de coisa, circulando.

E a terra, palavra espacial, tatuada de

[sonhos,

cálculos.

VI

Onde é Brasil?

Que verdura é amor?

Quando te condensas, atingindo

o ponto fora do tempo e da vida?

Que importa este lugar

se todo lugar

é ponto de ver e não de ser?

E esta hora, se toda hora

já se completa longe de si mesma

e te deixa mais longe da procura?

E apenas resta

um sistema de sons que vai guisando

o gosto de dizer e de sentir

a existência verbal

a eletrônica

e musical figuração das coisas?

[Suplemento Literário do Estado de São Paulo, 7.1.1961. Hemeroteca BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

 

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