Imagem do ano – Candidatos

Candidatos: Juscelino Kubitschek, PSD-Partido Social democrático – 3 077411 votos; Juarez Távora, UDN-União Democrática Nacional – 2 610 462 votos; Ademar de Barros. PSP-Partido Social Progressista – 2 222 725|

Fonte: Memorial da Democracia
Carlos Drummond de Andrade

João Brandão, com quem não me avistava há séculos, acha que o fato de os atuais candidatos à presidência da República não terem “sensibilizado a opinião pública”, tal como afirmam alguns sujeitos não candidatos não tem a menor importância. É até bom que o povo se conserve um pouco frio pois friamente decidirá talvez menos mal.

Em primeiro lugar pondera Brandão, pleito presidencial não é futebol, que desencadeia fortes emoções coletivas, e serve para escoar o excesso de animalidade jacente em cada um de nós. É simplesmente o ato de escolher um gerente para a firma, senão preferimos confessar, com o outro que é a oportunidade oferecida ao povo para escolher o seu tirano provisório.

Fonte: Memorial da Democracia

 

A nomeação do gerente deve ser pacífica, inspirada em razões práticas, isenta de lirismo e atmosfera passional. Não acalentamos a ilusão de que o gerente vai revolucionar o nosso jeito de vida e insuflar ânimo aos preguiçosos, imaginação aos pobres de espirito, virtude aos impuros, e ordem à natureza.

Não. O gerente vai “fazer o possível”, isto é, nada ou quase nada. Esperemos, no máximo, que seja discreto e probo. Já convencido de que ele não será o messias, o legislador democrático marca-lhe o prazo de cinco anos para dar conta do recado: bom ou mau, não tem direito de agir por mais tempo; e às vezes nem esse prazo chega a ser cumprido, o que mostra como cinco anos são difíceis de passar.

Fonte: Memorial da Democracia

O mesmo legislador foi sábio, exigindo tão pouco do candidato à presidência da República. Basta ser brasileiro, estar no exercício dos direitos políticos e ser maior de 35 anos. E esses direitos se perdem, entre outros motivos sem grandeza, “por incapacidade absoluta”.

João conclui daí que para ser presidente da República basta não ser absolutamente incapaz de ser presidente da República. (Para oficial administrativo, veja você, o DASP, exige muito mais.) E a prática tem demonstrado que, afinal, quase sempre dá certo, isto é, o Brasil não desaba.

Caixa de fósforo. Fonte: Memorial da Democracia

Diz-se que os candidatos atuais não satisfazem. Por quê? São bastante sortidos, quanto a temperamentos e métodos, embora não o sejam tanto quanto às ideias, que, como ficou provado, não se exigem do candidato.

Pin da campanha de Juarez Távora

Que venham outros, se houver outros indivíduos maiores de 35 desejosos de concorrer à função (uma democracia, trata-se de emprego controlado, e não de sacerdócio). Não é necessário, para isso, que se afastem os atuais pretendentes. Mesmo porque, se esses que estão aí não comoveram o eleitor, quem afinal o comoverá? O marechal Dutra?

Mas a proliferação de candidatos conduzirá a uma eleição pulverizada, com um eleitor sem maioria positiva. E daí? Dono da maioria, o presidente presidirá de mais, como há exemplos memoráveis no passado.

Deixem-no governar pouco, isto é, errar pouco. E permita-se ao Legislativo exercer uma autoridade que, diluída entre seus membros numerosos, se parecerá menos com a tirania.

Porque, para Brandão, todo gerente aspira a ser tirano, ou alguém na sua intimidade faz força por isso. Prefiramos um relativo desmazelo à ordem imposta e odiosa, que dissimula uma profunda desordem.

Fala-se em golpe… Essa noção é uma constante em nossos cálculos políticos, como de resto na vida social e comercial. Acabará desmoralizada, porque os golpistas por sua vez não se entendem, e o ceticismo do cidadão já se fatiga de frases, ameaças e promessas.

– Em suma – conclui João Brandão, homem qualquer – vou escolher sem paixão entre os candidatos atuais e futuros, pesando-lhes mais os defeitos que as qualidades, e desde já me coloco em modesta oposição ao vencedor. O mais é discurso, compadre.

[Correio da Manhã, Rio, Quinta-feira, 19-05-1955. Fonte: hemeroteca da BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

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