Em busca do elo perdido: o voto envergonhado

Fotos: Reprodução e IA
Victor Missiato*

A duas semanas de uma das eleições mais concorridas da história recente do Brasil, a disputa presidencial entra em uma fase na qual a fotografia produzida pelas pesquisas pode não revelar integralmente os movimentos do eleitorado.

O acirramento entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) recoloca no centro da campanha não apenas a polarização entre os dois principais campos políticos, mas também uma variável de difícil mensuração: o chamado voto envergonhado.

De um lado, Flávio Bolsonaro encontra nas atuais controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) um elemento capaz de mobilizar setores do eleitorado que já apresentam uma relação crítica com a Suprema Corte.

A aproximação construída nos últimos anos entre o governo Lula e o STF, inclusive em momentos de tensão entre Executivo e Legislativo, tornou o tribunal parte importante da dinâmica política nacional.

Nesse contexto, quanto maior a repercussão de controvérsias envolvendo os ministros, maior tende a ser o potencial de exploração desse tema pela campanha de Flávio, especialmente entre parcelas da classe média das grandes cidades do Sudeste.

No outro lado do tabuleiro, Lula possui peças importantes. A defesa da soberania nacional, a presença do Estado na área social e, principalmente, a percepção dos efeitos das políticas de transferência de renda podem preservar sua capacidade de diálogo com parcelas importantes do eleitorado.

O impacto do aumento no Bolsa Família sobre o humor eleitoral será uma variável relevante, sobretudo entre mulheres das periferias e das cidades do interior, para as quais o benefício representa uma parcela importante da renda familiar.

É justamente nessa interseção entre rejeição, identidade política e necessidade econômica que aparece o elo perdido desta eleição: o voto que não necessariamente se manifesta de maneira explícita.

O voto útil pode retirar pontos de candidatos situados na margem de 3% a 4% das pesquisas e redistribuí-los entre os dois polos principais. Renan Santos, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Augusto Cury disputam um espaço que, na reta final, pode ser pressionado pela lógica do segundo turno.

O eleitor que simpatiza com uma terceira opção pode concluir que sua escolha precisa ser redefinida diante da possibilidade de uma nova polarização.

Para Lula, esse movimento poderia estar associado a indecisos que, mesmo insatisfeitos com o governo, enxergam na continuidade uma escolha mais previsível diante da possibilidade de uma mudança de campo político.

O raciocínio seria menos marcado pelo entusiasmo e mais pela familiaridade: um Lula 4 já possui, para esse eleitor, uma dimensão concreta de experiência política, enquanto um eventual Flávio 1 representa uma incógnita maior.

No campo de Flávio, a mesma lógica pode aparecer entre eleitores que ainda não manifestam publicamente sua preferência, mas que se aproximam de sua candidatura à medida que outros nomes da centro-direita perdem espaço. É nesse ponto que o voto útil e o voto envergonhado podem se encontrar.

A personalidade dos candidatos também interfere nessa equação. Lula carrega o desgaste natural de uma trajetória política extensa, enquanto Flávio ainda procura consolidar uma identidade própria diante da força simbólica da figura de Jair Bolsonaro.

A eleição, portanto, não envolve apenas partidos, propostas ou pesquisas. Envolve também a construção de imagens políticas capazes de produzir identificação.

Nas próximas duas semanas, os debates presidenciais podem funcionar como um dos principais momentos dessa construção. Historicamente, nem todo debate produz alterações significativas no comportamento eleitoral.

Em uma disputa marcada por elevada polarização e rejeição, porém, a exposição direta dos candidatos pode adquirir outra dimensão.

*Victor Missiato é professor de História do Mackenzie Tamboré. Analista político e Dr. em História

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