Drummond no currículo escolar: utopia ou plausibilidade?
Dolores e Drummond
Foto: Altamir Barros/ Acervo: O Cometa
“… a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia…”
A Máquina do Mundo – Carlos Drummond de Andrade
Graça Lima*
Outubro se avizinha. Época em que o nome do poeta itabirano começa a circular sob os holofotes do cenário cultural e atrai a atenção de pesquisadores, jornalistas, professores, estudantes, leitores comuns e até mesmo não-leitores atraídos pela atmosfera de “festa” que toma conta da cidade. Nesse contexto, dois eventos merecem destaque: a Semana Drummond e o Flitabira.
A Semana de Literatura, criada pelo Departamento de Letras da Faculdade de Ciências Humanas de Itabira (FACHI) na década de 1980 é hoje promovida pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade sob o epíteto Semana Drummond.
Trata-se de um acontecimento, digamos, doméstico, fiel às raízes de uma iniciativa que, incentivada pelo jornal O Cometa Itabirano, realizava-se – apesar das restrições financeiras – movida pelo interesse de tornar a obra do poeta objeto cultural digno de estudo e reflexão.
Certamente, uma forma de sensibilizar aliada ao desejo de alargar o campo de conhecimento, sobretudo o do itabirano, acerca da produção do famoso poeta, então com pouca ou nenhuma visibilidade em sua terra natal.
O Flitabira, agora na 6ª. edição, chegou para ampliar, em dimensões incontornáveis, o olhar sobre o universo drummondiano. Primado pela versatilidade, esse evento realiza-se sob condições bastante diversas comparadas às da Semana Drummond.
O rol de patrocinadores de peso e muita gente de destaque envolvida permitem que uma programação refinada, variada e múltipla enriqueça e dissemine cultura nos dias finais de outubro e nos iniciais de novembro.
Esse período, como mencionado anteriormente, chama a atenção da mídia, congrega especialistas, professores, alunos, artistas, livreiros, autores da mais reconhecida linhagem da seara literária dispostos a revisitar, em infinitas abordagens, uma obra aberta à plurissignificação inesgotável só possível na arte de grandes mestres.
Soma-se a isso, a presença de itabiranos em mesas de debate e afins, quer sejam estudiosos da obra do homenageado, artistas que tematizam gêneros cultivados pelo escritor, pessoas de destaque na comunidade e jovens estudantes que participam dos concursos lançados a cada edição.
O Flitabira 2026 , como de costume, organiza-se em torno de um tema, inspirado, evidentemente, na obra de Carlos Drummond. Para este ano, “A Máquina do Mundo em Nós” é o grande mote, o eixo central da programação.
Essa proposta baseia-se em “A Máquina do Mundo”, da obra “Claro Enigma”, longo poema profundamente filosófico, instigante, revelador, epifânico, complexo, para dizer pouco ou quase nada sobre ele.
Fico pensando em como crianças e adolescentes se resolverão ao serem convidados a criar desenhos e escrever redação sobre esse tema, o que exige intervenções dos colegas professores, muitos dos quais se dizem “despreparados” para tarefa dessa natureza uma vez que o ano, quase findo, exige-lhes concentração nos “conteúdos” ainda a serem desenvolvidos.
A esse propósito, sinto-me à vontade para comentar que, em constantes assessorias pedagógicas prestadas a escolas públicas e privadas, constato que o trabalho com a literatura e as artes mostra-se, com exceções, bastante acanhado, para não dizer raso e pouco produtivo.
Utilitarista, também, sobretudo no Ensino Médio, com os olhos voltados para o Enem e outros processos seletivos a que os estudantes necessariamente se submeterão.
Creio não ser essa a realidade específica de Itabira. Na verdade, as telas e os algoritmos vêm, não de hoje, ocupando espaços cada vez mais amplos no ensino em detrimento, acima de tudo, de conteúdos mais sensíveis, a exemplo da literatura, da filosofia e das outras artes.
Nesse contexto, e para além dele, ganham indiscutível pertinência as palavras do neurocientista Sidarte Ribeiro: “As novas gerações serão extremamente literais porque o espaço da metáfora, da alegoria, da poesia, da filosofia está sendo drasticamente reduzido.”
Ouso mudar a forma verbal flexionada no futuro do presente do indicativo para o presente desse mesmo modo: as gerações atuais, expressão tomada no sentido amplo e generalizado do termo, são extremamente literais, haja vista a enorme dificuldade demonstrada ao lidar com subentendidos, implícitos e inferências na interpretação de textos, inclusive os de pouca complexidade estrutural, linguística e temática.
Essa condição é claramente percebida na simples observância do desempenho dos jovens estudantes nas atividades escolares corriqueiras e, sobretudo, nas avaliações externas aplicadas periodicamente.
Em virtude dessa constatação, lembro que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) estabelece objetivos, conteúdos, metodologias, competências e habilidades como elementos norteadores do processo de ensino e aprendizagem.
E esse documento oficial contempla, ainda, os conteúdos ou “Temas Contemporâneos Transversais” (Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde, Orientação Sexual) como incentivo às escolas no sentido de desenvolverem práticas interdisciplinares voltadas para as necessidades dos alunos e para as particularidades locais relativamente aos aspectos acima mencionados ou deles derivados.
Preâmbulo feito, vem aqui uma sugestão, utópica ou plausível, para colocar nossos estudantes em contato direto e permanente com a obra e Drummond – um ponto de partida para a fruição de outras e diversas obras literárias e artísticas.
A inclusão, no currículo das escolas do município, do tema transversal: “ A literatura de Itabira para o mundo: Drummond – vida e obra” por meio de abordagens interdisciplinares em que a produção do poeta passaria a ser vista sob a perspectiva de diferentes olhares, conferindo-lhe novas “identidades”.
É necessário não só falar em Drummond ou repetir mecanicamente versos, a modo de clichês, pinçados aleatoriamente de poemas sequer conhecidos em sua totalidade.
A leitura esporádica da obra do poeta, o estudo e a reflexão sobre ela são comportamentos a serem desenvolvidos, estimulados no cotidiano das salas de aula e em outros espaços culturais da cidade.
Enfim, não se cria intimidade com o texto drummondiano tão somente pela participação em atividades pontuais no mês de aniversário do poeta.
Atualmente, identificam-se em Itabira boas iniciativas em torno da obra do poeta. Refiro-me a dois projetos da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade: Hora da Poesia e Saberes, idealizados e conduzidos pela persistente e comprometida Otávia Senhorinha, que traz no nome o mesmo Andrade de Carlos Drummond.
O primeiro, incentiva a produção literária de novos poetas itabiranos e, o segundo, divulga, leva a poesia a escolas itabiranas.
Agora, desejamos que os alunos de nossas instituições de ensino participem do concurso promovido pelo Flitabira, como já o fizeram nas edições anteriores, e, quem sabe, o contato com “A Máquina do Mundo” lhes abra caminhos para novas incursões pelos textos poéticos de Carlos Drummond de Andrade e de outros autores.
Fica a proposta: Drummond no currículo escolar municipal. Como executá-la? Esse é assunto para outra conversa.
“A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.”
A Máquina do Mundo – Carlos Drummond de Andrade
*Graça Lima é professora de Literatura e Língua Portuguesa.









Graça e sua graça literária. CDA deve ser obrigatório nas escolas de Itabira