Discurso religioso se impõe na campanha de Flávio Bolsonaro e tensiona o Estado laico
Flávio Bolsonaro é batizado no rio Jordão, em Israel, numa repetição de ato feito pelo pai em 2016
Foto: Reprodução
O candidato do PL intensifica a fusão entre fé e política, ecoa princípios da teologia do domínio e reacende o debate sobre o papel da religião na vida pública brasileira
Valdecir Diniz Oliveira*
A campanha de Flávio Bolsonaro se consolida como uma das expressões mais explícitas da fusão entre religião e projeto de poder no Brasil contemporâneo. Em eventos públicos, cultos e manifestações, o candidato tem reiterado que sua candidatura representa uma missão espiritual. Na Marcha para Jesus, em Cuiabá, afirmou: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Em culto na Igreja Mundial do Poder de Deus, em São Paulo, no feriado de 7 de setembro, pediu que “o Senhor leve a sua espada da justiça na Praça dos Três Poderes, em Brasília” e que “afaste todo espírito mal desse País”.
As falas não são isoladas. Elas compõem um repertório discursivo que se tornou marca da família Bolsonaro desde 2018, agora reorganizado em torno de Flávio e de Michelle Bolsonaro, que se tornou a principal porta-voz religiosa do grupo. A narrativa mobiliza símbolos cristãos, linguagem de guerra espiritual e a ideia de que o Brasil precisa ser “resgatado” para Deus. Suas declarações, como a de que sendo eleito irá baixar decreto para “tornar o Brasil oficialmente de Cristo”, reforçam a percepção de que sua campanha se apoia em uma visão confessional de Estado.
O que se observa é uma liturgia política, com a política convertida em culto, o palanque transformado em púlpito, o voto apresentado como ato de fé. É dessa forma que a campanha deixa de ser apenas disputa eleitoral e passa a ser ritual de guerra espiritual.
A Teologia do Domínio como matriz ideológica
O discurso de Flávio Bolsonaro dialoga com elementos centrais da Teologia do Domínio, corrente evangélica que defende que cristãos devem “tomar” as esferas da sociedade na política, educação, cultura, justiça, como meio de estabelecer um governo alinhado a princípios religiosos. Pastores como Renê Terra Nova, César Augusto, Robson Rodovalho e André Valadão são referências desse movimento no Brasil, ainda que nem todos se assumam como dominionistas. A ideia de “governo do justo”, “mandato divino” e “tomada das sete montanhas” é recorrente em seus sermões.
A Teologia do Domínio opera com uma lógica de ocupação. Para seus seguidores, o mundo é dividido em esferas que devem ser conquistadas para Cristo. A política é uma delas – talvez a mais importante. A linguagem é militarizada: batalha, guerra, conquista, território, autoridade espiritual. A fé deixa de ser experiência individual e passa a ser projeto de poder.
Pesquisadores como Magali Cunha, Christina Vital, Vítor Araújo e Ronilso Pacheco apontam que esse discurso ganhou força no país ao longo da última década, especialmente após 2018, quando Jair Bolsonaro passou a mobilizar a retórica de “missão divina” e “guerra espiritual” como parte de sua estratégia política. A presença de Flávio em púlpitos e eventos religiosos, e sua aproximação com líderes que defendem a ocupação cristã das instituições, reforçam a leitura de que sua campanha ecoa princípios dominionistas, mesmo sem declará-los explicitamente.
Michelle Bolsonaro e a liturgia da política doméstica
Michelle Bolsonaro desempenha papel central na articulação entre fé e política. Em cultos e eventos, afirma que “o Brasil é do Senhor”, que “Cristo está no comando” e que “Deus acima de tudo” deve orientar a vida pública. Sua atuação mobiliza sobretudo mulheres evangélicas, segmento que cresceu politicamente nos últimos anos e que se tornou base importante do bolsonarismo.
Michelle opera como ponte entre o discurso religioso e o discurso político. Sua linguagem é emocional, maternal, espiritualizada. Ela fala de cuidado, de proteção, de família, mas também de batalha, de missão, de resgate. É nesse ponto que sua retórica funciona como “apito de cachorro”: mensagens que parecem neutras para o público geral, mas que carregam significado específico para grupos religiosos mais fervorosos.
Pastores como agentes políticos
A presença de Flávio Bolsonaro em cultos não é apenas simbólica. Ela revela a crescente atuação de pastores como agentes políticos. Líderes como Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, André Valadão e Jackson Vilar têm ampliado sua influência sobre o eleitorado evangélico, articulando apoio a candidaturas alinhadas à Teologia do Domínio. A retórica de “tomar o Brasil para Cristo” e de “restaurar a nação” é também frequente em seus discursos, criando uma atmosfera de mobilização espiritual que se converte em engajamento político.
Pesquisadores da PUC-Rio, do ISER e do CEBRAP apontam que esse movimento não é homogêneo. Há tensões internas, disputas por influência e divergências teológicas. Mas há também uma convergência: a defesa de um Estado que reflita valores cristãos específicos, em detrimento da pluralidade religiosa e da laicidade constitucional.
O contraponto histórico: a Teologia da Libertação
Se a Teologia do Domínio busca a ocupação das instituições pelo cristianismo evangélico, a Teologia da Libertação, corrente da esquerda católica, propõe o oposto: a ascensão do povo humilde como sujeito político. Surgida nos anos 1960 e 1970, após o Concílio Vaticano II, influenciou movimentos sociais, comunidades eclesiais de base e setores progressistas da Igreja Católica. Pesquisadores como Leonardo Boff, Frei Betto e Gustavo Gutiérrez defendem que o papel da fé é libertar os pobres da opressão, não ocupar o Estado.
A Teologia da Libertação não opera pela lógica da tomada das esferas, mas pela organização comunitária, pela educação popular e pela crítica estrutural às desigualdades. Enquanto o dominionismo prega que o justo deve governar, a Teologia da Libertação sustenta que o povo deve se emancipar. Uma busca o domínio; a outra, a libertação.
Historicamente, Lula se alinha a esse campo. Sua trajetória política foi marcada pela proximidade com lideranças da Teologia da Libertação, que ajudaram a estruturar movimentos como o PT, a CUT, o MST. A visão de mundo que emerge desse campo é a de um Estado que protege os pobres, não que se submete a uma doutrina religiosa. É um projeto que, por sua própria natureza, reforça a laicidade como condição para a justiça social.
Esse contraste revela duas matrizes ideológicas que hoje disputam o imaginário político brasileiro. De um lado, a Teologia do Domínio, que busca ocupar o Estado em nome de Deus. De outro, a Teologia da Libertação, que busca transformar o Estado em nome dos pobres. São visões incompatíveis sobre o papel da fé na vida pública.
Estado laico, Estado confessional e teocracia
O Brasil é constitucionalmente um Estado laico. Isso significa que o Estado não adota uma religião oficial e deve garantir liberdade religiosa a todos. Quando um projeto político defende que o país deve ser governado por princípios religiosos específicos, aproxima-se da ideia de Estado confessional. Quando a religião passa a governar diretamente o Estado, configura-se uma teocracia.
A retórica de Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e pastores dominionistas tensiona esse equilíbrio. Ao afirmar que o Brasil deve ser “resgatado para Cristo”, ao pedir que Deus “leve sua espada da justiça” ao centro do poder, ao mobilizar a linguagem de guerra espiritual, cria-se um ambiente em que a religião deixa de ser expressão individual e passa a ser projeto de governo.
O risco à democracia
Pesquisadores alertam que a fusão entre fé e política pode fragilizar a democracia. A linguagem de guerra espiritual polariza o debate público, transforma adversários em inimigos, dificulta a negociação e ameaça minorias religiosas. A pressão para que políticas públicas reflitam doutrinas específicas compromete a pluralidade e a liberdade de crença. A deslegitimação de instituições em nome de Deus abre espaço para radicalização.
O avanço da teologia do domínio no Brasil não é apenas fenômeno religioso. É movimento político que busca reconfigurar o Estado. A campanha de Flávio Bolsonaro, ao mobilizar símbolos cristãos e ao se aproximar de líderes dominionistas, insere-se nesse contexto. A defesa do Estado laico, portanto, não é apenas questão jurídica. É questão democrática, de disputa entre barbárie e civilização.
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Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.









