Extrativismo predatório é um modelo insustentável e injusto
Foto: Carlos Cruz
O extrativismo predatório consiste na exploração intensiva dos recursos naturais, como minerais, petróleo, madeira, água e biodiversidade, sem considerar os impactos ambientais e sociais dessa atividade
Por Henrique Cortez*
EcoDebate – O modelo de desenvolvimento baseado no extrativismo predatório é ambientalmente insustentável por várias razões e, por isto, esse modelo é criticado por diversos movimentos e organizações que defendem a necessidade de descolonizar o modo de produção e buscar alternativas ao desenvolvimento que respeitem a diversidade e a sustentabilidade da vida
O modelo extrativista gera uma série de problemas, tais como:
– Degradação dos ecossistemas e perda da biodiversidade. O extrativismo provoca o desmatamento, a erosão do solo, a contaminação da água e do ar, a redução dos habitats e a extinção de espécies. Esses efeitos comprometem o equilíbrio ecológico e os serviços ambientais que sustentam a vida humana e animal.
Por exemplo, a mineração de ouro na Amazônia causa a destruição da floresta, a poluição dos rios com mercúrio e o deslocamento de comunidades indígenas. A exploração de petróleo no pré-sal gera o risco de vazamentos que podem afetar a fauna e a flora marinhas. A extração de madeira ilegal contribui para o aquecimento global e a perda de espécies endêmicas.
– Dependência econômica e vulnerabilidade social. O extrativismo cria uma situação de dependência dos países que adotam esse modelo em relação aos mercados internacionais, que determinam os preços e a demanda dos recursos naturais. Além disso, o extrativismo gera uma concentração de renda e de poder nas mãos de poucos atores, que se beneficiam da exploração dos recursos em detrimento das populações locais, que sofrem com a pobreza, a exclusão, a violação dos direitos humanos e a falta de participação política. Por exemplo, a exportação de soja e carne bovina para países como China e Estados Unidos gera lucros para os grandes produtores rurais, mas aumenta o desmatamento, o conflito agrário e a violência no campo. A extração de diamantes na África financia grupos armados que cometem atrocidades contra as populações civis.
– Inviabilidade a longo prazo. O extrativismo é um modelo que se baseia na exploração de recursos finitos e não renováveis, que se esgotam com o tempo. Isso significa que esse modelo não é capaz de garantir o desenvolvimento sustentável, que é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer as possibilidades das gerações futuras. Por exemplo, o carvão, o petróleo e o gás natural são fontes de energia fósseis que emitem gases de efeito estufa que contribuem para as mudanças climáticas. O cobre, o ferro e o alumínio são metais que demandam muita energia e água para serem extraídos e processados. A água doce é um recurso essencial para a vida que está ficanddo escasso em muitas regiões do mundo.
É importante e necessário dar destaque especial à tragédia dos povos indígenas causada pelo garimpo ilegal.
Os povos indígenas conhecem bem uma história marcada pela violência, exploração e desrespeito aos direitos humanos. O garimpo ilegal de ouro tem causado desmatamento, poluição dos rios, violência e doenças entre os povos originários. Há denúncias de estupro, assassinato e desaparecimento de crianças indígenas relacionadas ao garimpo ilegal. Além disso, o garimpo ameaça a cultura ancestral e a sobrevivência dos que vivem em harmonia com a natureza há séculos. Mais do que uma demonstração das consequências do extrativismo predatório, é importante e necessário que esta tragédia humanitária, à beira do genocídio dos povos indígenas, não seja esquecida
Portanto, é preciso buscar alternativas ao modelo de desenvolvimento baseado no extrativismo, que sejam mais respeitosas com o meio ambiente e com as pessoas. Algumas dessas alternativas são:
Uma das alternativas ao modelo de desenvolvimento baseado no extrativismo é o pós-extrativismo, que propõe uma transição para uma economia mais diversificada, que não dependa exclusivamente da exportação de matérias-primas, mas que valorize também os setores produtivos locais, a soberania alimentar, a agroecologia, a economia solidária, a educação e a cultura.
O pós-extrativismo também implica em uma mudança de paradigma, que reconheça os limites ecológicos do planeta e os direitos da natureza, que promova a participação democrática e a justiça social, que respeite os saberes e as cosmovisões dos povos originários e tradicionais, e que questione o conceito de progresso baseado no crescimento econômico ilimitado.
Outra alternativa ao modelo de desenvolvimento baseado no extrativismo é o decrescimento, que defende uma redução do consumo e da produção nos países ricos, para permitir uma distribuição mais equitativa dos recursos e uma melhoria da qualidade de vida de todos.
O decrescimento não significa um retrocesso ou uma negação do desenvolvimento, mas sim uma crítica ao modelo capitalista e à ideologia do desenvolvimentismo, que impõem uma lógica de acumulação e competição insustentável. O decrescimento propõe uma sociedade mais simples, frugal e solidária, que valorize o bem viver em harmonia com a natureza e com os outros seres humanos.
Além dessas alternativas, também podem ser citadas:
– A transição para uma economia verde e circular, que priorize o uso eficiente e racional dos recursos naturais, a redução do consumo e do desperdício, a reciclagem e a reutilização dos materiais, a geração de energia limpa e renovável e a criação de empregos verdes.
– A valorização da diversidade cultural e biológica, que reconheça o papel dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros grupos tradicionais na conservação dos recursos naturais e na promoção do desenvolvimento local. Esses grupos possuem saberes ancestrais e práticas sustentáveis que devem ser respeitados e valorizados.
– A democratização da gestão ambiental, que envolva a participação efetiva da sociedade civil na tomada de decisões sobre o uso dos recursos naturais e na fiscalização das atividades extrativistas. Isso implica em fortalecer os mecanismos de controle social, transparência e accountability nos âmbitos local, nacional e internacional.
Essas são apenas algumas das alternativas ao modelo de desenvolvimento baseado no extrativismo que vêm sendo debatidas e experimentadas por diversos movimentos e organizações em todo o mundo.
As alternativas apontam para a possibilidade de construir um futuro mais justo, democrático e sustentável para todos.
Não é simples nem fácil, mas é possível e necessário.
*Henrique Cortez é jornalista e ambientalista









