Radamés Teixeira e o pulso que pulsa em Itabira
No destaque, o professor com alunos na Escola de Arquitetura da UFMG
Foto: Reprodução/ Abreu – Arquitetura Brasileira em Revista
A cidade que um urbanista imaginou e projetou
Denes Martins da Costa Lott*
Mudei de bairro. Recentemente deixei de morar na proximidade do centro antigo de Itabira, e passei a viver no Bairro Amazonas, região mais distante das que vivi em Itabira ao longo da minha vida até agora, com idas e vindas alternadas com Belo Horizonte.
E foi no deslocamento cotidiano, que algumas avenidas deixaram de ser para mim apenas paisagem. A Ipiranga, a Mauro Ribeiro, a Machado de Assis, a Jairo Magalhães Alves, eixos que estou usando, que escoam o trânsito, que ligam bairro a bairro sem que a cidade antiga, histórica de Itabira, precise absorver tudo.
Vejo que estes eixos não nasceram do acaso nem da pressa de uma gestão. Nasceram de vários projetos, concebidos e elaborados por Radamés Teixeira da Silva, arquiteto e urbanista, professor da Escola de Arquitetura da UFMG, que por décadas, a partir do início dos anos 1960, pensou e concebeu uma proposta urbanística para Itabira.
Essa mudança de olhar a cidade, me fez perceber uma necessidade de reconhecimento que a Itabira tem com o homem que desenhou estas vias modernas. Perceber a obra de Radamés Teixeira, ao passar por estas vias, convida a pensar a cidade, seu presente e seu futuro.
As cidades são inventadas, há cidades que precisam se reinventar
Há quem sustente que a cidade é a maior invenção humana. Itabira ilustra bem essa tese. Foi inventada no século XVIII pela mineração, e é por força da mineração que subsiste e cresce até hoje.
Nessa origem, que dá à cidade sua identidade mais reconhecível, com uma mina dentro da cidade, também habita o temor que a ronda, o risco de virar enclave, um lugar cuja lógica urbana se esgota junto com o minério. Foi contra esse risco que Radamés Teixeira trabalhou.
Ele chegou a Itabira na década de 1960, a convite da Prefeitura, no governo Wilson Soares, e voltou em 1983, chamado pelo então prefeito José Maurício Silva, para dar continuidade a um projeto que tinha por objetivo explícito afastar a cidade das minas.
Permaneceu como consultor até o final da gestão de Jackson Tavares, por volta de 2000, somando quase quatro décadas de presença intermitente, mas decisiva, no desenho da cidade.
As avenidas como instrumento de futuro

As avenidas que hoje atravessamos com naturalidade foram, no seu tempo, propostas de ruptura. Radamés projetou a avenida Carlos Drummond de Andrade com seu prolongamento até o bairro Praia.
Concebeu o conjunto viário do Espigão, só executado décadas depois, na gestão de Ronaldo Magalhães, e idealizou a avenida Safena, que teria a função de “desobstruir as artérias cansadas do centro histórico”. A Safena nunca saiu do papel por inteiro; sua herança sobrevive na avenida Mauro Ribeiro, trecho que chegou a ser aberto.
Não foi um urbanismo apenas viário. Em 1995, sob sua coordenação técnica, a Câmara aprovou a nova lei de uso e ocupação do solo e o novo Código de Obras de Itabira, liberando prédios de até doze andares, mas só em avenidas largas, com afastamentos, boa ventilação e iluminação, e lotes generosos.
Não era verticalização pela verticalização, era a ideia de que a cidade nova precisava de espaço para respirar, coisa que as ruas estreitas do centro histórico, erguidas em outra lógica, já não comportavam.
Também é dele a concepção e a localização da EEMZA – Escola Estadual Mestre Zeca Amâncio, erguida sobre área assoreada de finos de minério nas margens do córrego da Penha, um gesto que, à sua maneira, antecipa em décadas o que hoje chamaríamos de recuperação de área degradada.
Uma proposta para a memória técnica e histórica
Quando eu estive à frente da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Itabira, a arquiteta Luciana Bragança, itabirana, aluna de Radamés, então recém-falecido, lançou a semente dessa ideia: que Itabira abrigasse o acervo de projetos, mapas e estudos do professor.
A proposta ainda precisa amadurecer. Segue como um projeto em aberto. Onde abrigar este acervo? Qual a forma de acesso a ele? Para isso, é preciso a convergência de esforços entre o poder público, a sociedade civil e a comunidade acadêmica.
Radamés foi cofundador da primeira escola de design de Minas Gerais, hoje Escola de Design da UEMG. Deixou pesquisa acadêmica, entrevistas, plantas e um método de olhar as cidades a partir de suas vias de transporte, tema de sua própria tese de livre docência.
Um acervo desses, sediado em Itabira, não seria apenas homenagem, seria instrumento de trabalho para quem hoje pensa o urbanismo e o pós-mineração não só desta cidade, berço da mineração intensiva no Brasil, mas também de outras com a mesma característica e vocação.
Itabira depois da mina
O professor Radamés Teixeira, sem prever uso de Cfem, sem conceber plano de fechamento de mina, sem os instrumentos técnicos que hoje discutimos, já respondia a questões muito atuais, com por exemplo, uma cidade que cresce para outros lados, que não depende apenas do centro histórico espremido junto à cava, é uma cidade que já começou a se desvincular do destino de enclave.
As divergências políticas, os pessimismos e os otimismos que atravessam Itabira não anulam o fato de que a cidade cresceu, tem estrutura, e ainda tem para onde crescer. Existiu alguém que teve a paciência e a obstinação de desenhar o caminho urbanístico para o futuro de Itabira.
Itabira virou símbolo nacional da mineração, cidade em que essa atividade produziu experiências de todo tipo, com reflexos os mais diversos sobre quem aqui viveu e vive.
A cidade carrega um traço existencial, ela sabe que dependeu profundamente da atividade mineral, e ao mesmo tempo busca descobrir quem ela será “depois do minério”.
Isso aparece no urbanismo, no discurso político e até no imaginário afetivo da cidade, com um peso histórico e sentimental muito forte.
A cidade ao mesmo tempo é berço de Carlos Drummond de Andrade e da Vale. Tem paisagem marcada por minas, barragens e cavas.
Cresceu com lógica minero-industrial, com implantação segregada de bairros operários, bairros dos técnicos e bairros habitados por engenheiros e médicos, circunstância que já se modificou com o favorecimento das intervenções urbanísticas do Dr. Radamés.
Um retrato da cidade de Itabira neste inverno de 2026 mostrará uma obra de Radamés Teixeira em funcionamento, assim como se vê Lúcio Costa quando olhamos para Brasília ou para a Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, ou vemos Le Corbusier em várias cidades do mundo.
É importante reavivar a memória do arquiteto e urbanista Radamés Teixeira através da divulgação de sua obra e de seus projetos para Itabira, trazendo esse acervo para a cidade. Há formas de viabilizá-lo e deixá-lo apto à visitação e à consulta.
Estes projetos mostram hoje um ser vivo, uma cidade, resultado de projetos urbanísticos, que cresce, não parou no tempo e tem perspectiva de crescimento.
O pulso, aqui, ainda pulsa.
*Denes Martins da Costa Lott (OAB/MG 51.993) é advogado e consultor independente em Direito Ambiental e Minerário, sediado em Itabira/MG. É mestre em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental, foi analista ambiental na Vale S.A. e Secretário Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Itabira. É coautor de obra sobre fechamento de mina e reforma da CFEM.
Atua em licenciamento ambiental, direitos minerários, laudos de avaliação imobiliária com enfoque minerário (H&BU – CPC 46/IFRS 13), TAC, APP, Reserva Legal, ANM e FEAM, atendendo mineradoras e proprietários rurais.
Fontes
CRUZ, Carlos. “Morre aos 96 anos, Radamés Teixeira, o arquiteto urbanista que procurou afastar Itabira das minas da Vale”. Vila de Utopia, 15 dez. 2020. Disponível em: viladeutopia.com.br.
LINHARES, Tatiana. “Morre Radamés Teixeira, o urbanista que projetou as avenidas de Itabira”. DeFato Online, 15 dez. 2020. Disponível em: defatoonline.com.br.
“Radamés Teixeira: A trajetória de um grande urbanista”. Revista Abreu, 30 ago. 2020 (com base na pesquisa CNPq “O Urbanista Radamés Teixeira: trajetória acadêmica, proposições, projetos e conjunturas”, 2013–2017, e no artigo de Maria Cristina Villefort Teixeira e Renata Pedrosa Barbosa apresentado no 4º Seminário Ibero-americano de Arquitetura e Documentação). Disponível em: abreu.digital.









