Justiça fecha Cachoeira do Tabuleiro dias após reabertura patrocinada pela Anglo American

Fotos: Divulgação/
Ascom/MPMG

Decisão expõe contradições entre propaganda de preservação ambiental e impactos da mineração em Conceição do Mato Dentro, onde comunidades quilombolas denunciam violações e escassez de água

Poucos dias após a imprensa e influenciadores áulicos anunciarem com estardalhaço a reabertura da Cachoeira do Tabuleiro, patrimônio natural da Cordilheira do Espinhaço em Conceição do Mato Dentro, a Justiça determina o fechamento imediato do poço principal e áreas adjacentes.

Na cerimônia de reabertura, realizada em 19 de julho, o atrativo foi ufanisticamente apresentado como símbolo da retomada do turismo e da economia local, com a Anglo American figurando como patrocinadora das obras de estabilização e protagonista da preservação ambiental.

A cobertura jornalística e de influenciadores reforçou a ideia de que o patrocínio da mineradora havia garantido infraestrutura e segurança, mas se “esqueceu” de mencionar os conflitos socioambientais que envolvem o projeto Minas-Rio e os impactos sentidos pelas comunidades quilombolas e rurais da região.

Decisão desmonta narrativa
Área com o bloco que se soltou, próximo à queda d’água principal

Contudo, atendendo à petição do Ministério Público de Minas Gerais, poucos dias depois a Justiça acolheu o pedido e determinou o fechamento imediato do atrativo turístico.

Em sua petição, o promotor Frederico Tavares de Lanna Machado foi categórico ao afirmar que não havia condições técnicas para liberar a visitação, destacando que o município havia descumprido em grande parte as obrigações assumidas no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

Relatórios geotécnicos advertiram que o maciço rochoso apresentava risco de novas rupturas e classificaram como imprudente a liberação. O Corpo de Bombeiros reforçou que o local oferece risco iminente de queda de parte do paredão, sem previsibilidade de quando ocorrerá, recomendando que o acesso fosse limitado a 500 metros da queda d’água e que o espelho d’água só poderia ser liberado após o desmonte do bloco instável.

A petição inicial ainda ressalta ainda que não havia sido instalada estação meteorológica a montante da cachoeira, equipamento vital para prevenir trombas d’água. E, tampouco, havia  implementado sistema sísmico permanente para monitorar vibrações e deslocamentos de rochas.

Além disso, o organograma de segurança elaborado em 2023 não foi cumprido, faltando rotas de fuga, sinalização padronizada e dispositivos de proteção. Também o plano de manejo não foi considerado adequado antes da reabertura.

E a certificação técnica expedida pela empresa contratada limitou-se a apenas um setor de risco, deixando de fora outros quatro.

Diante desse quadro, o representante do MPMG sustenta que a decisão administrativa de liberar o atrativo foi tomada em flagrante má-fé e desprezo pela vida, violando o princípio da precaução e expondo visitantes a riscos iminentes de tragédia.

O representante ministerial fez ainda um paralelo com episódios recentes que se transformaram em tragédias, como o desabamento em Capitólio em 2022 e o acidente no Cânion do Peixe Tolo em 2025, reforçando que a negligência em atrativos naturais pode custar vidas.

Exemplo de teto pendente, evidenciando possível queda de blocos, à semelhança do que ocorreu com a tragédia de Capitólio
Descumprimento sistemático do TAC

Nessas circunstâncias, a ação de execução ajuizada pelo MPMG requer a interdição imediata do poço principal da cachoeira do Tabuleiro num raio de 500 metros, com a instalação de barreiras físicas, placas de advertência e fiscalização constante, até que todas as medidas pactuadas fossem integralmente cumpridas.

O promotor fundamenta o pedido no princípio da precaução, conforme artigo 225 da Constituição Federal, que impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações.

E também em dispositivos específicos do Código de Processo Civil (CPC) e do Código de Defesa do Consumidor (CDC) que autorizam tutelas de urgência e medidas executivas atípicas para proteger a vida e o meio ambiente.

Ao invocar esse conjunto normativo, o representante do MPMG deixa claro que o direito à integridade física e psíquica dos visitantes, bem como à preservação ambiental, deve prevalecer sobre interesses econômicos e turísticos.

A decisão judicial, portanto, não apenas desmonta a narrativa de “reabertura segura”, mas reafirma que a proteção da vida e do meio ambiente é prioridade constitucional e legal, impondo ao município e à Anglo American o cumprimento efetivo das obrigações assumidas.

Anglo American e os impactos sobre comunidades

Enquanto patrocina a reabertura do Tabuleiro, a Anglo American segue acumulando denúncias em Conceição do Mato Dentro e Alvorada de Minas.

Comunidades quilombolas reassentadas perderam vínculos culturais e vivem em insegurança, em áreas onde o acesso à terra e às tradições foi profundamente afetado.

Moradores denunciam redução da disponibilidade de nascentes, apesar da propaganda de recuperação hídrica. E relatam que o abastecimento de água tornou-se irregular, com poços e córregos secando em função da pressão exercida pela atividade minerária.

Detonações diárias de rochas provocam vibrações que abalam casas e estruturas comunitárias, além de gerar poeira fina em suspensão que compromete a qualidade do ar e agrava problemas respiratórios.

O ruído constante das operações, somado à movimentação intensa de caminhões, altera o cotidiano das comunidades e aumenta a sensação de vulnerabilidade.

Há também relatos de impactos psicológicos. É que famílias reassentadas vivem sob estresse permanente, temendo novos deslocamentos e convivendo com a perda de referências culturais e territoriais.

A insegurança alimentar também cresce, já que áreas antes destinadas à agricultura de subsistência foram reduzidas ou inviabilizadas pela contaminação do solo e da água.

Além de tudo isso, a presença da mineradora divide comunidades entre aqueles que dependem de empregos temporários oferecidos pela empresa e os que resistem à perda de direitos e ao avanço da mineração sobre seus territórios.

O resultado é um ambiente de tensão permanente, em que promessas de desenvolvimento e sustentabilidade contrastam com a realidade de precarização e risco.

Greenwashing desmontado pela Justiça

Esse quadro evidencia que, enquanto a Anglo American busca associar sua imagem à preservação e ao turismo sustentável, os impactos decorrentes sobre as comunidades vizinhas revelam um processo de fragilização social e ambiental, o que contradiz frontalmente a narrativa de responsabilidade socioambiental divulgada pela empresa.

Fica evidente o contraste entre a propaganda de “preservação hídrica” e os relatos de escassez de água, deslocamentos forçados e insegurança, o que revela uma prática típica de greenwashing, muito comum entre as mineradoras.

Isso porque, enquanto a Anglo American busca associar sua imagem à sustentabilidade por meio de patrocínios e projetos pontuais, seu empreendimento minerário, que se estende pela Serra da Serpentina em parceria com a Vale, gera impactos estruturais e violações de direitos.

No caso do Tabuleiro, a narrativa de “grande feito” durou apenas poucos dias, até ser desmontada pela decisão judicial fundamentada na ação do MPMG.

Paralelo com a Vale em Itabira

Esse episódio em Conceição do Mato Dentro, guardadas as diferenças, se assemelha ao que ocorre em Itabira com o projeto Rio Tanque, da Vale.

Apresentado com estardalhaço recentemente na praça Acrísio de Alvarenga como gesto voluntário de “preservação hídrica”, o projeto é, na verdade, cumprimento tardio de obrigação legal prevista desde a Licença de Operação Corretiva de 2000 – resgatada como obrigação de fazer não cumprida, por meio da assinatura do TAC de 2020.

Na prática, foi a promotora Giuliana Talamoni Fonoff quem obrigou a mineradora a cumprir a condicionante, sob pena de ser denunciada por manter a população local sem água, enquanto esbanja o recurso de classe especial em suas atividades minerárias no Distrito Ferrífero de Itabira.

Assim como no Tabuleiro, trata-se de propaganda verde enganosa ao transformar obrigação legal em ação voluntária, mascarando responsabilidades e atrasos.

O paralelo com Itabira mostra que o greenwashing não é exceção, mas prática recorrente das mineradoras, que travestem obrigações legais em propaganda verde para sustentar sua imagem pública.

Essa estratégia de marketing ambiental, porém, não resiste ao confronto com a realidade. É que comunidades impactadas continuam a sofrer com escassez de água, deslocamentos forçados e insegurança, enquanto as empresas tentam se apresentar como agentes de preservação.

O discurso de sustentabilidade, nesse contexto, aparece irremediavelmente enlameado pela lama assassina de Mariana e Brumadinho.

Quando os rejeitos mal acumulados romperam, não destruíram apenas estruturas físicas e comunidades inteiras, mas também enlamearam de forma definitiva a credibilidade das mineradoras perante a sociedade.

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