Crise de governança na Vale: Conselho decide afastar vice-presidente por vazamento de informações sigilosas
Foto: Reprodução/Vale
Investigação independente confirma desvio de conduta de Marcelo Gasparino da Silva; disputa interna expõe fragilidade na governança da mineradora e gera apreensão em cidades como Itabira, que vive expectativas em torno do programa estratégico Itabira Sustentável
Em fato relevante divulgado nesta quarta-feira (22), a Vale informa que o Conselho de Administração decidiu pela destituição de Marcelo Gasparino da Silva, vice-presidente do colegiado, após investigação independente confirmar o vazamento de informações confidenciais da reunião de 19 de junho.
O comunicado, assinado por Marcelo Feriozzi Bacci, vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores, destaca que Gasparino foi afastado dos Comitês de Indicação e Governança e de Pessoas e Remuneração.
A decisão definitiva, porém, depende da aprovação dos acionistas em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), que será convocada nos próximos dias.
Disputa pela presidência acirra tensões
A crise atual é resultado de uma sucessão turbulenta no Conselho da Vale. Em 11 de junho, a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil e acionista relevante da mineradora, pediu a saída do então presidente do colegiado, Daniel Stieler.
Dias depois, em 19 de junho, uma reunião marcada por tensões internas trouxe à tona duas candidaturas à presidência: a de Gasparino e a de Manuel Lino “Ollie” Oliveira.
No início de julho, Stieler renunciou ao cargo e, nesta quarta-feira, Ollie foi eleito presidente em assembleia rápida, com apoio da Previ. Poucas horas após a eleição, o Conselho decidiu pela destituição de Gasparino, acusando-o de quebra de confiança.
Fragilidade de governança preocupa mercado
O episódio da destituição de Marcelo Gasparino expõe fragilidade na governança da Vale, que já vinha sendo alvo de críticas por disputas internas e pela influência de grandes acionistas.
O vazamento de informações confidenciais reforça preocupações sobre a segurança dos processos decisórios e a transparência da gestão.
A repercussão foi imediata no mercado internacional. Os ADRs (American Depositary Receipts) da Vale, que são recibos de ações da companhia negociados na Bolsa de Nova York, e que permitem a investidores estrangeiros adquirir papéis de empresas brasileiras, recuaram mais de 2% após o anúncio, refletindo apreensão dos investidores diante da instabilidade institucional.
Entretanto, o mesmo movimento não se observou no mercado doméstico. No Brasil, as ações da Vale (VALE3) registraram alta ao longo do pregão, sustentadas pela valorização do minério de ferro e pelo desempenho positivo de commodities.
O Ibovespa, principal índice da B3, tinha viés de alta até o fechamento desta reportagem, mostrando que fatores externos ligados às commodities pesaram mais do que a crise de governança na percepção dos investidores locais.
Itabira e o desafio do futuro sustentável
Itabira, cidade berço da Vale, depende fortemente da atividade mineral, com mais de 80% da arrecadação tributária e compensação financeira (royalty do minério) municipal ligada à mineração.
Nesse contexto, a instabilidade na governança da empresa preocupa ainda mais porque o município vive expectativas em torno de investimentos da mineradora no programa estratégico Itabira Sustentável, lançado pela prefeitura com apoio da direção da empresa.
O plano prevê 15 projetos estruturantes para preparar o município para o período pós-mineração, o que passa pela diversificação econômica, com a instalação de novo condomínio industrial, turismo, saúde, mobilidade urbana, saneamento básico.
A implementação dessas iniciativas depende de parcerias e aprovações que passam pelo Conselho da Vale, o que torna a atual crise um fator de risco para a implementação atual e futura do programa.
Em encontro recente, o prefeito Marco Antônio Lage discutiu com o presidente da Vale, Gustavo Pimenta, a necessidade de acelerar projetos como do novo distrito industrial, a a duplicação das rodovias MG-434 e MG-129, a reforma do centro histórico, entre outros projetos igualmente importante.
Esses investimentos são considerados essenciais para garantir um futuro próspero e sustentável para o município. E sua aprovação deve passar pelo crivo e aprovação do Conselho de Administração da Vale.
Crepúsculo da mineração
A crise na Vale não é apenas corporativa. Ela tem potencial de repercutir diretamente no futuro de programas estratégicos nos municípios onde a empresa mantém operações minerárias, como é o caso de Itabira, que já vive o crepúsculo da mineração em seu território.
Daí que o município precisa, com urgência, criar novas bases econômicas para garantir sua sustentabilidade futura.
Desde há algum tempo, a principal fonte de receita tributária, vinculada à mineração, vem sofrendo sucessivas quedas.
E sem o apoio estratégico da mineradora na implementação de projetos estruturantes, como os previstos no programa Itabira Sustentável, o município terá dificuldades para enfrentar a transição pós-mineração.
Se nada de relevante mudar essa realidade, o risco é de que Itabira enfrente um processo de esvaziamento econômico e social, tornando-se mais uma quase “cidade fantasma” após o fim do ciclo de prosperidade proporcionado pela mineração.
O desafio, portanto, é transformar a dependência histórica da mineração em oportunidade de diversificação econômica, garantindo que o município não sofra a definitiva derrota incomparável com encerramento inevitável da atividade mineral.
Nesse processo, a Vale tem uma dívida histórica e moral a saldar com Itabira. Mais do que cumprir obrigações legais, a mineradora precisa assumir um papel ativo na construção de alternativas sustentáveis, apoiando projetos que assegurem à cidade um futuro próspero além da mineração.
Fontes consultadas
- Fato relevante da Vale (22/07/2026): comunicado oficial assinado por Marcelo Feriozzi Bacci, vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores.
- Dados de mercado: Valor Econômico e Reuters.









