Estados Unidos celebram sua independência, enquanto Trump restringe liberdades e desrespeita soberanias

Foto:  Divulgação/
White House

No aniversário da independência, o discurso patriótico convive com políticas migratórias severas, tensões internacionais e a reafirmação de um projeto neoimperialista que desafia os próprios ideais fundadores da nação

Valdecir Diniz Oliveira*

Neste sábado (4), os Estados Unidos celebram 250 anos de independência, vivendo uma extrema contradição. 

A data que deveria simbolizar liberdade e democracia revela, no entanto, um projeto político que se aproxima perigosamente da máxima absolutista de Luís XIV, o “Rei Sol”: “O Estado sou eu”.

Sob Donald Trump, essa lógica ganha contornos ainda mais expansivos, como se o presidente dissesse: “O Império sou eu”.

É assim que o patriotismo do 4 de Julho é instrumentalizado para legitimar políticas de poder pessoal, restrição de direitos e ofensivas geopolíticas que ecoam um neoimperialismo em escala global.

Independência e distopia: o Estado encarnado no líder

Trump se coloca como guardião da soberania americana, mas na prática centraliza poder e desrespeita soberanias alheias.

Como um novo César, ergue muros e decreta quem pode ou não atravessar as fronteiras do império.

A celebração da independência torna-se palco de um discurso que mistura nacionalismo exacerbado com autoritarismo, transformando símbolos históricos em ferramentas de legitimação de políticas expansionistas.

Imigração: fronteiras da exclusão

O endurecimento das políticas migratórias é um dos pilares dessa agenda. Deportações aceleradas, restrições ao asilo e separação de famílias revelam um projeto que contrasta com a própria história dos Estados Unidos, construída por sucessivas ondas de imigração.

A Estátua da Liberdade, símbolo de acolhimento, parece convertida em guardiã de um portão de ferro.

Exemplos recentes ilustram essa contradição, como as operações do ICE ampliadas em estados considerados “permissivos”, deportações em massa de centro-americanos e endurecimento dos critérios para pedidos de asilo.

A retórica da “segurança nacional” transforma imigrantes em inimigos internos, como se o país que nasceu da imigração agora se voltasse contra sua própria origem.

É uma inversão histórica que lembra a Lei de Exclusão Chinesa no século XIX ou as cotas raciais de imigração nos anos 1920, períodos em que o medo e o preconceito ditaram políticas públicas.

Guerras externas, controle interno

Nos conflitos internacionais, Trump assume a postura de um imperador romano em campanha, projetando poder fora de casa para justificar vigilância dentro dela.

A guerra na Ucrânia é usada como argumento para reforçar controles migratórios e ampliar operações do ICE contra imigrantes considerados “suspeitos”.

No Oriente Médio, cada intervenção militar é apresentada como defesa da “civilização ocidental”, mas internamente legitima medidas de exceção, como espionagem ampliada e restrições a direitos civis.

A disputa com a China é convertida em narrativa de “guerra econômica”, usada para justificar sanções internas e vigilância sobre empresas de tecnologia.

Já no México e na América Central, a retórica da “guerra contra o narcotráfico” sustenta a construção de muros e operações de deportação em massa.

É como se cada batalha externa fosse também uma oportunidade de reforçar a autoridade sobre os próprios cidadãos, transformando o medo em instrumento de disciplina interna.

A lógica imperial se reafirma ao controlar fronteiras, expandir influência e impor agendas políticas além do território norte-americano, uma versão moderna da Pax Romana, agora sustentada por drones, sanções econômicas e deportações em massa.

Judiciário como freio e contrapeso

Se Trump encarna o poder imperial, o Judiciário aparece como um bastião de resistência, ainda que pressionado. A Suprema Corte, ao julgar temas como cidadania por nascimento ou os limites das ordens executivas, funciona como último muro contra a completa captura do Estado.

Decisões que barraram a separação de famílias na fronteira, limitaram deportações em massa e reafirmaram o princípio do jus soli mostram que ainda há resistência constitucional.

Mas cada vitória judicial é seguida de novas tentativas do Executivo de contornar a lei, como se o imperador testasse, dia após dia, até onde pode avançar.

Esse embate lembra os confrontos entre o Parlamento inglês e os reis absolutistas do século XVII, quando cada decisão era uma reafirmação de que o poder não é ilimitado, mas precisa se submeter a regras e contrapesos.

É nesse embate que a democracia americana ainda respira, mesmo sob a pressão de um projeto que busca se impor como soberano absoluto.

Neoimperialismo e a América Latina

Na América Latina, o trumpismo ecoa como uma versão moderna da Doutrina Monroe, agora revestida de populismo de extrema direita.

Ao apoiar candidatos alinhados, Donald Trump age como se pudesse redesenhar o mapa político do continente, impondo sua agenda além das fronteiras dos Estados Unidos.

A vitória de Javier Milei na Argentina em 2023 mostrou como a extrema direita se fortalece em momentos de crise, mas também revelou os limites de sua aplicação prática, com cortes drásticos em políticas sociais e a deterioração acelerada das condições de vida têm gerado protestos e instabilidade.

No Chile, José Antonio Kast assumiu a presidência em março de 2026, encerrando o ciclo progressista de Gabriel Boric e consolidando uma agenda conservadora centrada em segurança e ordem pública, em sintonia com Milei e Trump.

Na Colômbia, Gustavo Petro foi derrotado em 2026 e o país elegeu Abelardo de la Espriella, advogado ultraconservador que venceu por margem apertada e já sinalizou alinhamento com Washington e com os modelos de Milei e Bukele.

No Peru, Keiko Fujimori foi proclamada presidente agora, após vencer por pequena margem, confirmando o retorno do fujimorismo ao poder e reforçando a onda conservadora regional.

Tiro no pé

No Brasil, o cenário é distinto e se desenha como uma exceção, mas os sinais das intervenções trompistas já são evidentes, seja por meio de apoio explícito a figuras da extrema direita, seja pela articulação de redes de desinformação.

A aposta, no entanto, tem até aqui se mostrada desastrada, uma vez que a direita e extrema direita deixaram de consolidar um candidato competitivo e embarcaram na canoa furada do bolsonarismo, com Flávio Bolsonaro à frente, incapaz de contrapor, por falta de conteúdo e malquisto legado paterno, com a força política de Lula.

Pesquisas recentes indicam Lula como favorito, com recall e liderança, enquanto a candidatura bolsonorita trumpista tende à derrota.

Esse contraste, confirmando-se quem já sabe já em primeiro turno, em 4 de outubro, reforça que, embora o trumpismo tenha avançado em países vizinhos, o Brasil caminha para rechaçar essa ofensiva, reafirmando sua soberania democrática diante das tentativas de desestabilização externa.

É assim que, enquanto Trump tenta exportar seu modelo imperial neoliberal, o Brasil responde com instituições independentes que funcionam como muralhas contra a desestabilização.

O Supremo Tribunal Federal tem atuado de forma decisiva não apenas por meio de Alexandre de Moraes, mas também com julgamentos colegiados que barraram tentativas de anistia a golpistas de 8 de janeiro e reafirmaram a legalidade das investigações sobre financiamento de redes de desinformação.

O Tribunal Superior Eleitoral, por sua vez, reforçou regras de transparência e combate às fake news, exigindo rastreabilidade de conteúdos pagos e responsabilizando partidos por campanhas de ódio.

A Polícia Federal ampliou operações contra o crime organizado, como a ofensiva que desarticulou células do PCC com conexões internacionais e bloqueou fluxos financeiros usados para lavagem de dinheiro.

O Ministério Público Federal tem atuado em conjunto, denunciando esquemas de financiamento ilegal de campanhas e pressionando por responsabilização criminal de empresários envolvidos em redes de desinformação.

O Banco Central também desempenhou papel importante ao reforçar mecanismos de rastreamento de transações suspeitas, colaborando para cortar o fluxo de recursos ilícitos.

Essas ações funcionam como um cerco medieval: cortar suprimentos, bloquear rotas e enfraquecer a base financeira dos grupos que tentam corroer a democracia.

Diferente da lógica imperial de bombardear barcos, o Brasil aposta em minar o poder econômico das organizações criminosas e das redes de desinformação, estratégia muito mais eficaz para preservar soberania e democracia.

Com as eleições gerais marcadas para 4 de outubro, já se percebe a tentativa de intervenção trumpista no pleito, seja por meio de apoio explícito a figuras da extrema direita, seja pela articulação de redes digitais

Pesquisas indicam que Lula mantém recall e liderança, enquanto a candidatura bolsonarista aparece fragilizada.

É assim que o Brasil pode se tornar uma exceção no continente, em meio ao avanço da extrema direita em países vizinhos, reafirmando sua soberania democrática e rechaçando a influência externa nas urnas.

* Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

 

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