Antipetismo e antibolsonarismo são expressão da luta de classes no Brasil

Fotos:  Ricardo Stuckert/PR/
Andressa Anholete/Agência Senado

Pesquisa Quaest revela que rejeições eleitorais refletem conflitos sociais, alienação e disputa por hegemonia

Por Valdecir Diniz Oliveira*

A polarização no Brasil não é apenas política, mas social e econômica. É o que confirmam os dados da pesquisa Genial/Quaest de junho de 2026, que mostram que 39% dos eleitores rejeitam votar no PT e 41% rejeitam o bolsonarismo.

Esses números não devem ser lidos apenas como fenômenos eleitorais, mas também como uma clara manifestação da luta de classes no Brasil.

Marx já apontava que a consciência de classe nasce da experiência material. É no bolso que começa a percepção das contradições sociais.

Mas a ideologia, difundida por aparelhos culturais e políticos, pode distorcer essa percepção. Como escreveu Marx em A Ideologia Alemã, as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes.”

É nesse terreno que se explica por que setores populares podem ser capturados por discursos que não correspondem aos seus interesses materiais.

Antipetismo como reação das elites e da classe média

O antipetismo é mais forte entre empresários e setores médios urbanos, sobretudo no Sul e Centro-Oeste. É a reação de quem se sente ameaçado por políticas redistributivas e pela ascensão dos mais pobres.

O discurso contra a corrupção funciona como verniz moral, mas o que está em jogo é a defesa de privilégios e da ordem estabelecida.

Marx já alertava que a burguesia luta para preservar suas condições de existência, mesmo quando recorre ao moralismo político como disfarce.

Em A Ideologia Alemã, ele lembra que “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”.

O antipetismo, nesse sentido, é uma ideologia que mascara interesses materiais sob a roupagem da ética pública.

Antonio Gramsci ajuda a compreender esse mecanismo quando diz que a hegemonia não se sustenta apenas pela força, mas pelo consentimento.

O antipetismo é parte de um bloco histórico conservador que articula elites econômicas, mídia e religião para manter a direção intelectual e moral da sociedade.

Como escreveu em seus Cadernos do Cárcere, Gramsci acentua que “a supremacia de um grupo social se manifesta de duas maneiras, uma como domínio e outra como direção intelectual e moral.”

No Brasil, Florestan Fernandes mostrou como a “revolução burguesa” se deu de forma conservadora, mantendo privilégios históricos e bloqueando a ascensão popular.

O antipetismo é herdeiro dessa lógica, uma reação contra qualquer ameaça de democratização real com redistribuição da riqueza e do poder.

Jessé Souza acrescenta que o antipetismo é alimentado por uma classe média ressentida, que teme perder status e se deixa capturar por discursos moralistas e midiáticos.

Para ele, o discurso anticorrupção é um “moralismo seletivo”, que encobre a verdadeira luta de classes e reforça o papel da mídia como aparelho ideológico.

Podemos ainda lembrar Marilena Chauí, que descreve a classe média brasileira como “autoritária, violenta e antidemocrática”, sempre pronta a apoiar projetos conservadores quando sente seus privilégios ameaçados.

O antipetismo é a expressão contemporânea dessa postura, travestida de indignação moral.

Antibolsonarismo e a resistência popular e cultural

Do outro lado, o antibolsonarismo cresce entre jovens, mulheres e trabalhadores precarizados. É a recusa política a um projeto autoritário e excludente, mas também uma forma de resistência cultural e social.

Essa rejeição nasce da defesa de direitos básicos e da recusa a retrocessos, constituindo uma consciência de classe em formação.

Marx lembrava em O Manifesto Comunista que a história de todas as sociedades até hoje é a história da luta de classes.

O antibolsonarismo é a expressão contemporânea dessa luta, no campo político e cultural, uma manifestação da consciência de classe que se organiza contra a exclusão.

Autores brasileiros também ajudam a iluminar esse processo. Paulo Freire via a educação como prática da liberdade, capaz de transformar consciência ingênua em consciência crítica.

Nesse sentido, o antibolsonarismo também nasce da experiência concreta de exclusão e precarização, que funciona como uma pedagogia social às avessas.

A resistência surge como resposta às condições materiais, despertando consciência crítica e recusando retrocessos..

Marilena Chauí descreve como a sociedade brasileira é marcada por autoritarismo e desigualdade estrutural.

O antibolsonarismo surge como contraponto a esse autoritarismo, articulando demandas por democracia, diversidade e direitos sociais.

Podemos ainda lembrar Roberto Schwarz, que analisou as “ideias fora do lugar” na cultura brasileira. São os discursos conservadores que não correspondem à realidade material.

O antibolsonarismo é, em parte, a recusa a esse deslocamento, uma tentativa de alinhar prática política com experiência social concreta.

Desse modo, o antibolsonarismo não é apenas rejeição eleitoral. É também resistência cultural, social e política, que articula setores historicamente marginalizados em torno da defesa de direitos e da recusa ao autoritarismo.

O paradoxo do “pobre de direita”

O trabalhador que se identifica com pautas da direita é resultado da alienação. No trabalho, não reconhece que sua força de trabalho é fonte de valor.

Na política, é capturado por discursos religiosos e midiáticos que deslocam o conflito de classe para o campo moral: família, costumes, medo do “comunismo”.

Marx já alertava nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, que “o trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz”, ao vender a sua força de trabalho.

Alienado de sua própria condição, o pobre pode ser cooptado por narrativas que lhe oferecem pertencimento, ainda que contra seus próprios interesses.

Esse processo é intensificado pelo medo e pelos discursos fundamentalistas das igrejas neopentecostais, que funcionam como aparelhos privados de hegemonia do bloco dominante.

Paulo Freire ajuda a entender esse mecanismo. Segundo ele, a alienação é reforçada quando a educação não emancipa, mas reproduz a ideologia dominante.

Sem consciência crítica, o trabalhador se torna presa fácil de discursos que prometem ordem e salvação espiritual.

Darcy Ribeiro também acentuou esse aspecto ao analisar a crise educacional brasileira. Para ele, sem educação de qualidade, o Brasil seria condenado a ser dominado por elites que mantêm o povo em condição de subalternidade cultural e política, sob o jugo da religião.

Sua crítica ao Mobral é cirúrgica. Ribeiro demonstrou em inúmeros artigos que o programa cumpriu muito bem a sua função para o qual fora criado durante a ditadura militar para contrapor ao método Paulo Freire.

Sem desenvolver o senso crítico, o Mobral “alfabetizava” apenas para o trabalho, criando milhões de analfabetos funcionais.

Darcy Ribeiro via nisso um projeto deliberado da ditadura, como meio de impedir que a educação fosse instrumento de libertação, transformando-a em ferramenta de domesticação.

O resultado foi a produção em massa de analfabetos funcionais, úteis ao sistema porque podiam ser integrados ao mercado de trabalho, mas incapazes de questionar a ordem social.

Darcy sintetizou essa situação em uma frase célebre: A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.” Para ele, manter a educação alienante era uma estratégia de Estado, destinada a perpetuar desigualdades e garantir a hegemonia das elites.

Assim, tanto Freire quanto Ribeiro mostram que a alienação política não nasce apenas da exploração econômica, mas também da manipulação cultural e educacional.

A escola que não emancipa, mas domestica, cumpre o papel de reforçar a hegemonia conservadora, produzindo cidadãos capazes de ler palavras, mas não de ler o mundo.

É assim que a hegemonia conservadora se sustenta porque o povo é mantido em condição de semi-alfabetização crítica, capaz de soletrar e mal escrever palavras, mas não de ler o mundo.

Lélia Gonzalez acrescenta que a alienação política no Brasil também se articula com o racismo estrutural. Desse modo, segundo ela, o “pobre de direita” muitas vezes internaliza preconceitos que reforçam hierarquias sociais, mesmo quando ele próprio é vítima delas.

Assim, o “pobre de direita” não é apenas um paradoxo, mas o resultado de uma hegemonia conservadora que combina exploração econômica, alienação cultural e manipulação simbólica.

Gramsci e o bloco histórico

Como já acentuado aqui neste artigo por Gramsci, essa hegemonia não é apenas econômica, mas cultural e simbólica.

Desse modo, o bloco histórico conservador articula elites, mídia, religião e política para manter o consentimento das classes subalternas.

No Brasil, esse bloco histórico conservador se manifesta na aliança entre elites econômicas, grandes meios de comunicação e setores religiosos, que produzem consenso em torno de valores conservadores.

Sérgio Buarque de Holanda, ao falar do “homem cordial”, já apontava como a cultura política brasileira tende a naturalizar hierarquias e desigualdades, criando terreno fértil para a hegemonia conservadora.

A contrapartida só pode vir da construção de um novo bloco histórico progressista, capaz de articular forças sociais diversas em torno de um projeto de transformação.

É nesse esforço que Lula e o PT se movem, ora avançando, ora recuando, ora até se contradizendo, mas sempre tentando consolidar um bloco histórico moderno e progressista.

O desafio é enfrentar resistências no Congresso e nas instituições, sobretudo quando se trata de pautas de “última geração”, que são os direitos das minorias, igualdade de gênero, sustentabilidade.

Sem um novo bloco histórico sólido, progressista e bem assentado também no Congresso Nacional, essas pautas ficam vulneráveis ao veto conservador, como tem ocorrido historicamente no Brasil.

Consciência e hegemonia

Portanto, antipetismo e antibolsonarismo não são apenas rejeições eleitorais. São forças antagônicas, expressões da luta de classes e da disputa por hegemonia. O “pobre de direita” é produto dessa alienação e da hegemonia conservadora.

Gramsci, sempre é bom citá-lo, lembrava que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer.”

O Brasil vive essa encruzilhada, quando o velho bloco conservador ainda resiste, enquanto o novo bloco progressista luta para nascer e consolidar.

Com essas correlações de forças antagônicas, o Brasil vive essa contradição entre avanços sociais e democráticos e a permanência de estruturas conservadoras que bloqueiam o novo.

Portanto, nas eleições majoritárias e proporcionais deste ano estão em jogo essa disputa pela hegemonia cultural e política, pela consciência de classe e pelo futuro do país.

 

* Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

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