Fertilizantes orgânicos compostos recuperam o solo e simplificam manejo na horticultura

Foto: Divulgação

Pesquisas científicas, como da Esalq/USP, e experiências de campo mostram ganhos reais de produtividade e recuperação de solos degradados. O tema será um dos destaques da 31ª Hortitec, em Holambra (SP)

Quando Camila Carriel Domingues, de 26 anos, assumiu a gestão das estufas da família em Pilar do Sul, interior de São Paulo, encontrou um solo comprometido. O alto nível de salinização nas áreas de tomate, pimentão e pimenta americana era visível no desempenho das plantas: raízes pouco desenvolvidas, absorção de nutrientes prejudicada e um custo de adubação que consumia parte significativa da margem da produção.

“O maior desafio foi entender o campo na prática e encontrar formas de reduzir custos sem perder produtividade”, conta ela, que migrou da área comercial da propriedade para a gestão direta das lavouras, após o afastamento do pai por problemas de saúde.

Em busca de alternativas para reverter o quadro, Camila decidiu testar fertilizantes orgânicos compostos. A mudança não foi imediata nem isenta de dúvidas. “Quando se fala em insumos de origem orgânica, ainda existe um certo tabu. Mas, resolvi testar e acompanhar os resultados”, relata.

Hoje, todas as estufas da propriedade utilizam o composto orgânico como insumo de base, aplicado em média na dosagem de três quilos por planta.

Segundo a produtora, os resultados incluem redução de aproximadamente 95% nos gastos com adubação de base, reversão do quadro de salinização do solo e melhora perceptível no desenvolvimento radicular das plantas. “O solo que antes estava comprometido apresentou recuperação e as plantas passaram a responder melhor. A absorção de nutrientes mudou completamente”, afirma.

Além da redução de custos, ela destaca ganhos operacionais. Antes, a fertilização exigia uma combinação de diversos produtos aplicados em etapas distintas. “A gente trabalhava com uma lista extensa de insumos. Hoje, o manejo está mais simples e com melhor resultado”.

O cenário enfrentado por Camila não é incomum na horticultura brasileira. No cultivo protegido, especialmente em estufas com ciclos contínuos de produção, a degradação química do solo provocada pelo excesso de insumos costuma ser ainda mais intensa.

O acúmulo de sais, decorrente do uso frequente de fertilizantes minerais e da insuficiente reposição de matéria orgânica, reduz a disponibilidade de água para as plantas e compromete a atividade biológica do solo. O resultado, ao longo do tempo, é queda de produtividade mesmo com doses crescentes de fertilizantes.

Pesquisa confirma ganhos de produtividade

Os benefícios observados na propriedade paulista também encontram respaldo na pesquisa científica. Um estudo conduzido pela professora Simone da Costa Mello, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), avaliou o desempenho do fertilizante orgânico composto da Tera Nutrição Vegetal em lavouras de tomate no município de Sumaré (SP).

Os resultados indicaram aumento de produtividade em relação à adubação convencional, além de benefícios na qualidade dos frutos, com redução da acidez e melhor equilíbrio de sólidos solúveis, características relevantes tanto para o mercado in natura quanto para o processamento industrial.

A pesquisa também identificou que a produtividade máxima foi observada com aplicação equivalente a quatro toneladas por hectare do composto orgânico. Acima desse patamar, os ganhos marginais tendem a se estabilizar, informação importante para o planejamento econômico da fertilização.

Segundo o engenheiro agrônomo Fernando Carvalho Oliveira, responsável técnico pelo fertilizante orgânico composto da Tera, os efeitos do produto vão além da nutrição das plantas. “O material, quando submetido ao processo de compostagem e estabilização adequados, contribui para a melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo”, afirma. “Há também um componente de economia circular: resíduos que seriam descartados passam a ter função produtiva dentro da cadeia agrícola.”

O adubo utilizado nos estudos é produzido a partir da compostagem de lodo de esgoto tratado e resíduos orgânicos. O processo envolve controle de temperatura, umidade e tempo de decomposição para garantir a estabilidade microbiológica do material antes da aplicação nas lavouras.

Efeitos também aparecem em ambiente controlado

Experimentos conduzidos em ambiente controlado ajudam a ilustrar os efeitos dos fertilizantes orgânicos no desenvolvimento das plantas.

De acordo com Hiro Kawabata, consultor técnico da Tera Nutrição Vegetal, testes com tomate-cereja e mini girassol mostraram que plantas cultivadas em substrato enriquecido com 20% de composto orgânico apresentaram maior desenvolvimento vegetativo em comparação às que receberam apenas o substrato convencional, mesmo com irrigação e manejo idênticos.

“Os resultados evidenciam o papel da matéria orgânica na formação de sistemas radiculares mais robustos e eficientes, favorecendo a absorção de água e nutrientes e contribuindo para o melhor desempenho das culturas”, destaca.

Destaque na Hortitec 2026

O potencial dos fertilizantes orgânicos compostos para a horticultura será um dos destaques da 31ª Hortitec, que acontece entre os dias 17 e 19 de junho, em Holambra (SP).

Considerada uma das principais feiras de horticultura da América Latina, a Hortitec reúne produtores, técnicos, pesquisadores e empresas para discutir tendências e tecnologias voltadas ao setor.

Para Lucas Rugine, gerente comercial da Tera Nutrição Vegetal, o interesse crescente dos produtores reflete uma mudança de visão sobre o papel do solo na produtividade.

“O produtor está cada vez mais atento à necessidade de construir sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis. Os fertilizantes orgânicos compostos ajudam não apenas na produtividade, mas também na recuperação e manutenção da qualidade do solo, que é um dos principais ativos da agricultura”.

Durante a feira, a Tera apresentará sua linha de adubos produzidos por compostagem termofílica, com aplicações voltadas à horticultura, fruticultura e agricultura regenerativa. O estande também reunirá resultados de pesquisas e casos práticos relacionados à recuperação de solo e eficiência radicular.

Jovens produtores impulsionam mudanças no campo

A trajetória da Camila também reflete um movimento cada vez mais presente no agronegócio brasileiro: a entrada de uma nova geração na gestão das propriedades rurais, muitas vezes acelerada pelos processos de sucessão familiar.

Esses produtores costumam combinar o conhecimento acumulado pelas famílias com uma abordagem mais analítica na tomada de decisões, inclusive na escolha dos insumos utilizados na produção.

“Hoje vejo que inovação não é só tecnologia cara, mas tomar decisões melhores dentro da realidade da propriedade”, diz.

Em um mercado de fertilizantes minerais ainda dependente de importações e sujeito a oscilações significativas de preços, cenário que se intensificou nos últimos anos com as instabilidades geopolíticas nas principais regiões produtoras, a busca por alternativas de base orgânica também ganha uma dimensão estratégica para a autonomia produtiva do setor.

A resposta a essa equação começa a aparecer tanto nos resultados das pesquisas quanto nas contas das propriedades rurais.

Serviço

31ª Hortitec – Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas

Data: 17, 18 e 19 de junho de 2026
Local: Parque da Expoflora
Endereço: Alameda Maurício de Nassau, 675 – Holambra (SP)

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