Festival de Inverno de Itabira divulga programação ainda incompleta, até aqui uma das mais fracas dos últimos anos

O rapper Djonga é uma das atrações artísticas do 52º Festival de Inverno de Itabira: “Quanto eu mais como, mais fome eu sinto.”

Fotos: Divulgação/
Ascom/FCCDA

Evento é referência cultural em Minas Gerais, mas corre risco de se tornar apenas burocrático para cumprir calendário

Tendo como tema Travessias, propondo reunir “música, teatro, dança, literatura, artes visuais, oficinas e diversas experiências culturais para públicos de todas as idades”, o 52º Festival de Inverno de Itabira terá como atrações nacionais a cantora Mart’nália, que se apresenta no dia 19 de julho – e Djonga, no dia 25.

Djonga é considerado um dos maiores expoentes do rap nacional. Nascido em Belo Horizonte, tem se destacado com suas letras intensas e combativas, que abordam temas como racismo, desigualdade social, a realidade e a violência policial contra a juventude negra nas favelas.

Já Mart’nália é uma das maiores sambistas brasileiras contemporâneas, vencedora de dois prêmios Grammy Latino. É também atriz, tendo feito sucesso ao interpretar o personagem “Tamanco”, no humorístico Pé na Cova, da TV Globo.

A sambista Mart’nalia é um das atrações do 52º Festival de Inverno de Itabira
Agenda incompleta

Mas mesmo com essas duas atrações, a edição deste ano do Festival de Inverno, um dos mais tradicionais e longevos de Minas Gerais, pela programação até aqui divulgada, está longe do que se espera desse evento cultural na terra de Carlos Drummond de Andrade.

A explicação passa pelos cortes no orçamento, pela crise financeira enfrentada pela Prefeitura, seu principal e quase exclusivo patrocinador, e pela histórica ausência de apoio financeiro da iniciativa privada.

E diferentemente do que está divulgado, o festival não acontece de forma ininterrupta. Foi lançado em 1973, no governo do prefeito Virgílio Gazire (in memoriam), mas, em 1985, ano da criação da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), o festival não aconteceu, sob a alegação de que era preciso organizar primeiro a instituição.

Desde antes, sob a batuta e curadoria de Myriam de Souza Brandão (in memoriam), e depois com a FCCDA, o Festival de Inverno de Itabira seguiu sua tradição de esquentar as noites brancas itabiranas, com grandes atrações nacionais, além de valorizar o fazer cultural local, atraindo turistas e fortalecendo a identidade cultural da cidade.

Homenagens e resistências
Uma das 12 aquarelas grandes, a maioria inédita, da exposição “Querelas”, de Genin, uma das atrações do 52º Festival de Inverno de Itabira (Foto: acervo do artista)

A edição deste ano do festival fará homenagem à atriz Teuda Bara, uma das grandes artistas do teatro reveladas em Minas Gerais, uma das fundadoras do grupo Galpão, morta em 25 de dezembro do ano passado. A divulgação do festival não informou como será essa homenagem.

Haverá também exposição do cartunista e artista plástico itabirano Luiz Eugênio Quintão Guerra, o Genin, um dos fundadores do jornal O Cometa Itabirano, e colaborador deste site Vila de Utopia.

Na mostra Querelas, expressão que pode ser traduzida por “lamentação, expressão de sofrimento”, Genin apresenta uma série de aquarelas que refletem sobre o “destino mineral” de Itabira e tantas outras cidades mineradas com as suas sequelas ambientais, sociais e econômicas. “São 12 aquarelas grandes, a maioria inédita.”

Inspirado em Tolstói  (“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”), o artista denuncia as contradições da mineração com a degradação ambiental, a perda do patrimônio histórico e as tragédias anunciadas, como Mariana e Brumadinho.

As obras do artista itabirano, realizadas sob orientação do mestre Mário Zavagli, “um dos maiores aquarelistas do Brasil”, segundo Genin, são um testemunho poético e visual das transformações da paisagem itabirana e da memória coletiva mineira marcada pela exploração mineral.

O artista Genin com o mestre Mário Zavagli, “um dos maiores aquarelistas do Brasil” (Foto: acervo/divulgação)
Expectativa em suspenso

A FCCDA promete divulgar a programação completa do festival nos próximos dias por meio de seus influenciadores e canais oficiais e da prefeitura – e complementarmente pela mídia local.

Promete 12 dias de programação, distribuída em diferentes espaços culturais e áreas públicas da cidade. “Além de valorizar a produção artística local, o evento promove o intercâmbio artístico-cultural”, afirma em nota distribuída à imprensa.

Mas diante do que já foi anunciado, paira a provocação inevitável: será que o Festival de Inverno de Itabira ainda é capaz de honrar sua tradição, ou se tornou apenas uma travessia burocrática, desbotando e perdendo a cor, sem seguir uma política cultural consistente e duradoura?

Serviço

52º Festival de Inverno de Itabira – Travessias

Data: 15 a 26 de julho de 2026

Locais: Diversos espaços culturais e públicos de Itabira (MG)

Destaques nacionais

  • 19 de julho: show de Mart’nália
  • 25 de julho: show de Djonga

 

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