Desativação de trecho ferroviário com passagens de nível, em Itabira, abre espaço para parques lineares, mas projeto não sai do papel

Fotos: Carlos Cruz

Acordo entre Vale e município, decorrente da antecipação da concessão da EFVM, prevê obras após a desativação de trechos com passagens de nível; cidade já perdeu parque na Esplanada da Estação, e corre risco de não contar com os parques lineares prometidos

Com negociações ainda em curso entre a Prefeitura e a Vale, a expectativa é transformar o trecho ferroviário a ser desativado, para eliminar passagens de nível no perímetro urbano de Itabira, em parques lineares, com uma pequena via de passagem para automóveis.

“É o que temos acertado com a Vale”, assegurou o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) à reportagem.

Entretanto, até agora, a desativação do trecho ferroviário, entre a curva da 105 passando pela Vila Amélia e Alto Pereira até encontrar a ferrovia que vem da mina Conceição, permanece apenas como promessa e negociação sem fim.

E assim, Itabira corre o risco de perder os parques lineares, que poderiam oferecer estruturas de lazer, com muita área verde, quadras esportivas, pistas de ciclismo e caminhadas, inexistentes de forma adequada na cidade, para outras propostas, como a abertura de mais uma avenida, o que seria um contrassenso.

Perda incomparável
Esplanada da Estação era para ser um parque ecológico, como defendeu O Cometa; virou condomínio fechado

Se assim acontecer, será mais uma perda incomparável, a exemplo do que ocorreu na década de 1990, quando foi desativado outro trecho ferroviário na cidade, na Esplanada da Estação.

A pera ferroviária foi transformada em condomínio residencial, apesar da proposta do jornal alternativo O Cometa, que defendia a criação de um parque municipal arborizado, com espaços de lazer e convivência.

Na época, o então superintendente das Minas, Ricardo Dequech, considerou mais apropriado transformar o local em condomínio para jovens engenheiros da mineradora, com a concordância do prefeito Li Guerra, do Codema e também do arquiteto urbanista Radamés Teixeira. Hoje, o condomínio não deve contar com engenheiros da Vale residindo por lá.

O Cometa ficou isolado na defesa do parque municipal, sem prejuízo para a abertura de uma nova avenida no ramal desativado, a atual Mauro Ribeiro.

Na ocaisão, o jornal sustentava que a pera ferroviária deveria ser devolvida ao município, já que havia sido desapropriada pela prefeitura, que indenizou o seu antigo proprietário, João Bragança, e a doou à mineradora com a finalidade de funcionar como porto seco.

Com o fim dessa finalidade, seria justo que a área retornasse à cidade, em benefício da coletividade.

Perdeu o Cometa na defesa do parque, mas sobretudo perdeu Itabira, que ainda hoje figura entre as cidades menos arborizadas do país e continua sem dispor de um parque municipal com essa finalidade recreativa e ecológica.

Enquanto isso, o itabirano continua fazendo suas caminhadas cheirando a fedentina do esgoto que corre pelo canal da Penha e fumaça de óleo diesel em outras vias de intenso trânsito.

Sustentabilidade urbana e pós-mineração
Trecho da ferrovia, na Vila Amélia, que será desativado com proposta de instalação de parques lineares

Essa ausência de espaços públicos de convivência socioambiental, recreativa e esportiva é sentida até hoje. Agora, mais uma vez, a cidade tem a oportunidade de ganhar um espaço adequado com a proposta dos parques lineares, em eterna negociação com a Vale.

Se virarem realidade, os parques lineares compensariam parte da perda da Esplanada da Estação, beneficiando não apenas os moradores vizinhos, mas toda a população itabirana.

O projeto integra o programa Itabira Sustentável, considerado estratégico para preparar o município para o pós-mineração. Mas, como tantas outras iniciativas, ainda não avançou além das intenções.

Com isso, Itabira corre risco de perder mais essa oportunidade, já que outras forças políticas defendem a abertura de mais uma avenida no trecho ferroviário a ser desativado. Se assim acontecer, será mais uma perda incomparável.

Enquanto a exaustão mineral avança de forma gradual e irreversível, mesmo com prazo final anunciado para 2053, conforme relatório Form-20 da Vale, Itabira precisa acelerar projetos que garantam não apenas sustentabilidade econômica sem o minério de ferro, mas também infraestrutura urbana que assegure qualidade de vida para as gerações atuais e futuras.

Os parques lineares, se implantados, podem se transformar em legados permanentes e ambientalmente corretos, oferecendo à população um espaço arborizado com infraestrutura de lazer, esportes, convivência e contemplação, ocupando o trecho ferroviário a ser desativado.

Itabira já perdeu o parque municipal na Esplanada da Estação. Não pode perder também a oportunidade de ganhar os parques lineares. Mais do que promessa, é preciso que virem realidade, devolvendo à cidade espaços públicos que ajudem a enfrentar o futuro sem minério e com qualidade de vida.

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