Bolsonaristas celebram inclusão por Trump de facções criminosas como terroristas e “esquecem” as milícias
Fotos: Casa Branca/ Agência Brasil
Ao festejar a inclusão do PCC e o CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, a extrema direita bolsonarista esquece que tem telhado de vidro diante das relações perigosas com milicianos no Rio, um poder paralelo blindado até aqui pela política e por parte daqueles que deveriam investigar
Valdecir Diniz Oliveira*
Crime organizado não é terrorismo, que fique claro. Essa confusão conceitual entre crime organizado e terrorismo não é apenas semântica e tem consequências práticas e políticas.
O terrorismo, por definição, busca atacar o Estado e desestabilizar governos. Já o crime organizado atua contra a sociedade, explorando mercados ilícitos e corrompendo instituições para acumular poder econômico.
Misturar os conceitos desloca o combate para o campo militar, quando o enfrentamento exige inteligência financeira e policial.
Nos Estados Unidos, país mais belicoso do mundo, intervenções militares já foram acusadas de “terrorismo de Estado” por críticos, mas nunca receberam tal classificação oficial. Mas poderiam, pois cabem perfeitamente no conceito.
Na Europa, máfias como a Camorra e a ’Ndrangheta prosperaram dentro do capitalismo avançado, mostrando que o crime organizado é produto da lógica de acumulação – e não apenas da pobreza estrutural.
Essas organizações se enraizaram em regiões desenvolvidas, explorando brechas econômicas e políticas, e revelando como a negligência dos Estados nacionais favorece sua expansão.
Portanto, a responsabilidade legal dos governos em combater as organizações criminosas não é opcional. Eles têm aqui no Brasil, como também na Europa e onde estiverem, o dever legal de combatê-las com persistência, cooperação transnacional e mecanismos de inteligência financeira.
Esse dever está consagrado em convenções internacionais, como a Convenção de Palermo da ONU (2000), que obriga os países a adotarem medidas coordenadas contra o crime organizado transnacional.
Entretanto, a experiência europeia demonstra que não basta repressão policial. É preciso articulação institucional e colaboração internacional contínua para desarticular redes que operam como verdadeiras corporações globais do crime.
O caso da família Bolsonaro e as milícias
No Brasil, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) são apenas parte do problema. As milícias do Rio de Janeiro representam um poder paralelo perigoso tanto quanto as facções, e com ligações diretas à própria família Bolsonaro.
O Intercept Brasil revelou que o esquema da “rachadinha” de Flávio Bolsonaro não se limitava ao desvio de salários de assessores. Parte desses recursos teria sido canalizada para financiar prédios ilegais erguidos pela milícia em Rio das Pedras e Muzema.
Os repasses eram feitos por Fabrício Queiroz e pelo ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, morto em circunstâncias controversas na Bahia, sob forte suspeita de execução para eliminar provas, em uma típica “queima de arquivo”. Nóbrega era apontado como chefe do chamado “Escritório do Crime”, grupo especializado em assassinatos por encomenda e com ramificações profundas na política carioca.
A revelação expôs como práticas aparentemente administrativas, como a “rachadinha”, se conectavam diretamente ao financiamento de organizações criminosas armadas, transformando corrupção política em combustível para o poder paralelo das milícias.
O Estadão mostrou que Jair Bolsonaro interferiu diretamente na Receita Federal para blindar o filho Flávio, em reunião com Augusto Heleno e Alexandre Ramagem, discutindo estratégias para anular relatórios fiscais.
O UOL detalhou como o caso das “rachadinhas” foi arquivado pelo STJ e pelo STF, após decisões que anularam provas do Coaf e inviabilizaram a denúncia do Ministério Público.
Além disso, o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), cassado por corrupção e cuja eleição contou com apoio explícito de Jair Bolsonaro e sua família, também aparece nas investigações do escândalo Master.
Castro foi condenado pelo TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022 e está inelegível por oito anos. Seu envolvimento com o caso Master, conforme revelou o Valor Econômico se deu por meio da utilização de recursos da Caixa de Previdência dos Servidores do Estado (RioPrevidência), responsável pela aposentadoria dos servidores públicos.
Segundo as investigações, parte desses fundos foi direcionada de forma irregular para operações financeiras ligadas ao Banco Master, em esquemas que levantaram suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento político.
O desvio de recursos da previdência dos servidores para alimentar negócios e alianças espúrias expõe não apenas a fragilidade institucional, mas também a profundidade das conexões entre o poder público e o sistema financeiro paralelo.
De acordo com reportagens do Intercept Brasil e também da Veja, Castro aparece como figura-chave nesse enredo, ampliando o alcance das conexões entre política institucional e o crime organizado no Rio de Janeiro.
O caso mostra como a blindagem política não se limita à família Bolsonaro, mas envolve também governadores apoiados pelo clã, revelando uma rede de cumplicidade que atravessa diferentes esferas do poder.
O caso do assassinato de Marielle Franco também reforça esse quadro. Investigações apontaram como mandantes os irmãos Domingos Brazão (ex-conselheiro do TCE-RJ) e Chiquinho Brazão (ex-deputado federal), condenados pelo STF a mais de 76 anos de prisão.
Apontaram também o envolvimento de Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil do Rio, acusado de obstruir as investigações. A execução foi realizada por milicianos ligados ao “Escritório do Crime”, incluindo Ronnie Lessa, ex-policial militar e notório miliciano, que efetuou os disparos.
A trama evidencia como o poder paralelo das milícias não apenas infiltra o sistema político, mas também elimina opositores e vozes críticas, consolidando sua força por meio da violência e da cumplicidade institucional.
Esse poder paralelo atua como uma engrenagem criminosa que se alimenta da corrupção e da omissão estatal, transformando práticas políticas em sustentação direta de grupos armados.
Mas é fundamental distinguir que, mesmo quando envolve interesses de Estado, não se trata de terrorismo, mas sim de organização criminosa.
Como já foi aqui afirmado, o terrorismo, por definição, busca desestabilizar governos e atacar o próprio Estado, enquanto as milícias e facções operam para lucrar dentro dele, explorando mercados ilícitos, controlando territórios e corrompendo instituições e parte da sociedade.
Banco Master/Vorcaro e o elo com Flávio Bolsonaro
O escândalo do Banco Master/Vorcaro amplia esse quadro e conecta diretamente ao senador Flávio Bolsonaro, com o suspeito financiamento do filme Dark Horse, conforme revelou o Intercept, em meio a suspeitas de que parte dos recursos circulava em esquemas de lavagem.
Reportagens revelaram que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha relações com políticos de direita e esquerda, incluindo governadores, senadores e ministros do STF.
Além disso, seu cunhado Fabiano Zettel foi o maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas em 2022, com R$ 5 milhões — R$ 3 milhões destinados ao ex-presidente e R$ 2 milhões ao atual governador de São Paulo.
Esses aportes, hoje sob investigação, reforçam a suspeita de que o poder financeiro do Banco Master foi decisivo para sustentar projetos políticos e culturais ligados ao bolsonarismo.
A delação premiada de Vorcaro, ainda não aceita pelo ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico” poderia expor vínculos comprometedores de políticos, mas foi até aqui travada justamente porque cita nomes ligados ao bolsonarismo.
Esse bloqueio mostra como a blindagem política não se limita às rachadinhas, mas se estende ao sistema financeiro e às instâncias superiores da Justiça.
O governo Lula e a PEC da Segurança
Enquanto isso, o governo Lula aposta em inteligência financeira para minar as fontes de recursos das facções, rastreando operações em fintechs, bancos suspeitos e fundos de previdência manipulados por esquemas criminosos.
A PEC da Segurança está parada no Congresso. Prevê a criação de um Ministério específico para o combate ao crime organizado, reforçando a necessidade de distinguir crime organizado de terrorismo.
Essa distinção é vital. Isso porque o Brasil não possui grupos terroristas organizados como os que ainda existem nos Estados Unidos, a exemplo da Ku Klux Klan (KKK) e de células supremacistas violentas.
Aqui, o que temos são facções e milícias que operam como organizações criminosas voltadas ao lucro e à consequente infiltração e mesmo obtenção de poder político.
Siga o dinheiro
Para combater o crime organizado, o caminho mais eficaz, como já ensinava o ex-procurador norte-americano Robert Morgenthau, é “seguir o dinheiro”.
Tanto os recursos apreendidos em malas de políticos, como no caso dos irmãos Geddel Vieira Lima e Lúcio Vieira Lima, ambos do MDB da Bahia, integrantes do fisiológico Centrão, flagrados em 2017 com mais de R$ 51 milhões em espécie em um apartamento em Salvador, por meio da Operação Tesouro Perdido, da Polícia Federal, quanto as fortunas acumuladas por facções como o PCC, o CV e as milícias cariocas, invariavelmente passam por algum tipo de “lavanderia” financeira.
Além disso, há denúncias envolvendo o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), presidente do PL, que teria sido flagrado com malas de dinheiro em seu apartamento, fato nunca explicado e que prossegue sendo investigado.
Esse caso reforça como a prática de ocultar grandes quantias em espécie não é exclusiva de facções criminosas, mas passa também por partidos e lideranças políticas, inclusive, e sobretudo, aquelas ligadas ao bolsonarismo.
É nesse rastreamento financeiro que se encontra a espinha dorsal do combate ao crime organizado. Seguir o dinheiro, seja nas malas abarrotadas de dinheiro de políticos, seja nos fluxos sofisticados de lavagem em bancos, fintechs e fundos de previdência, esse é o caminho para desarticular as engrenagens que sustentam facções e milícias criminosas.
No Brasil, esse poder paralelo se expandiu pela própria lógica do capitalismo desde o período colonial, com acumulação predatória de capital, captura de instituições e uso da violência como instrumento de controle social.
Espinha dorsal na Faria Lima
Por isso, o governo Lula busca atacar o coração financeiro das organizações, em vez de cair na armadilha da narrativa belicista importada dos Estados Unidos, que proposidamente confunde crime organizado com terrorismo e militariza o enfrentamento.
O crime organizado brasileiro não é terrorismo, é decorrente do capitalismo selvagem infiltrado na política. A narrativa que tenta enquadrar facções como terroristas serve a interesses externos e a setores bolsonaristas sob o manto do falso patriotismo, que convenientemente ignoram as milícias e suas conexões com a “famiglia” Bolsonaro.
O verdadeiro combate exige expor essas relações, fortalecer instituições e atacar as fontes financeiras que sustentam o poder paralelo.
É assim que, muitos dos que hoje aplaudem a intervenção trumpista neoimperialista, de caráter colonial e belicista, serão os mesmos que sentirão seus efeitos no coração financeiro do país, na avenida Brigadeiro Faria Lima, centro do mercado de capitais do país, e em setores “lícitos” como a distribuição de combustíveis e outras ramificações econômicas que ainda serão desvendadas.
Se a pretensão é realmente acabar com o PCC e o CV, o caminho é claro. É só seguir o dinheiro na Faria Lima e enfrentar os milicianos no Rio bolsonarista, que não é o Rio Cidade Maravilhosa, mas sim o epicentro de um poder paralelo blindado pela política da extrema direita brasileira bolsonarista e trumpista.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
**Com informações do Intercept, Folha de S.Paulo, UOL, Valor Econômico, O Globo e Agência Brasil.









