Itabira no primeiro quarto do século XXI: minério, resiliência e reinvenção incompleta

Foto: Carlos Cruz

Por Denes Martins da Costa Lott*

e Leonardo Pontes Guerra**

Este ensaio nasce de uma troca de ideias, de um incômodo compartilhado e de trajetórias que se cruzam em Itabira — na gestão pública, na reflexão técnica e na tentativa de compreender o que essa cidade foi, o que ela é e o que ainda pode ser.

Os autores partem de uma mesma inquietação: a percepção de que Itabira exige hoje uma leitura mais profunda do que as interpretações tradicionais repetem.

Durante décadas, consolidou-se uma narrativa dominante: a de que Itabira estaria condenada ao colapso com o esgotamento de suas jazidas. Essa ideia ganhou força especialmente a partir dos anos 1990, quando projeções apontavam a exaustão das reservas por volta de 2025.

O tempo mostrou outra dinâmica. O ano de 2010, longe de representar declínio, marcou o auge mineral, com cerca de 70 milhões de toneladas exportadas.

Esse dado não é apenas histórico. Ele é interpretativo. Ele revela que o problema nunca foi simplesmente a exaustão física do minério, mas a forma como a cidade se organiza em torno dele.

A leitura que propomos parte de uma premissa simples, mas pouco explorada: Itabira não é, nem nunca foi, apenas uma cidade da mineração industrial.

A presença do Frei Manoel do Rosário, em 1702, já associada a áreas de garimpo, indica uma ocupação inserida em circuitos econômicos mais amplos.

No século XIX, registros como os de Saint-Hilaire apontavam uma economia diversificada, combinando mineração, agricultura e atividades industriais relevantes para o contexto econômico daquela época.

Até esse período, predominava a mineração do ouro, enquanto o ferro já atendia sobretudo às forjas locais que atendiam um amplo mercado regional.

Há registros de que, no final do século XIX poucas cidades da Província de Minas Gerais sediavam Fábricas de Tecido. E em Itabira existiam duas: a Fábrica de Tecidos da Gabiroba e a Fábrica de Tecidos da Pedreira e ambas tiveram atividade durante a primeira década do século XX.

Por outro lado, a mineração não começa com a Vale, em 1942. Mas, sim, a extração mineral em Itabira ganhou escala crescente de aumento de volume e produtividade a partir daí.

A inflexão decisiva para economia da cidade de Itabira, com grandes impactos na vida nacional, ocorre no início do século XX, com o congresso de geologia de Estocolmo  em 1910, em que se anuncia aos mercados mundiais as gigantescas  reservas de minério em Itabira, e na sequência, a  implantação da Estrada de Ferro Vitória a Minas, a atuação do Brazilian Hematite Syndicate e a criação da Itabira Iron Ore Company.

Formou-se, naquele momento histórico um sistema integrado entre jazida, transporte e exportação. A criação da Companhia Vale do Rio Doce, em 1942, consolida esse arranjo em escala nacional. Já a privatização, em 1997, redefine sua lógica, inserindo Itabira de forma definitiva na dinâmica global de commodities.

Esse processo não pode ser compreendido apenas sob a ótica econômica. Ele é também territorial.

A mineração tem rigidez locacional. Ela acontece onde a geologia determina. A indústria, por sua vez, depende de condições espaciais específicas.

A instalação de uma grande siderurgia exigia áreas extensas e relativamente planas, compatíveis com estruturas industriais como laminadores de quilômetros de extensão. Itabira, com sua topografia acidentada, não oferecia essas condições.

Regiões ao longo da Estrada de Ferro Vitória a Minas, como o então distrito de Calado, atual Coronel Fabriciano, apresentavam características mais adequadas.

Então, por força de  concepções do Presidente Athur Bernardes,  num primeiro momento, e do Presidente Juscelino Kubistchek, o Vale do Aço se estrutura a aproximadamente 100 km de das minas de Itabira.

Na virada do século XXI, esse sistema atinge seu auge. Os dados de comércio exterior evidenciam o crescimento simultâneo do volume e do valor das exportações até cerca de 2010, seguido por queda acentuada e posterior estabilização, refletindo a natureza cíclica das economias baseadas em commodities.

Figura 1 — Evolução valor das exportações de Itabira (1997–2023)

Fonte : Data Viva – CEDEPLAR/UFMG

Figura 2 — Evolução do peso das exportações de Itabira (1997–2023)

Fonte : Data Viva – CEDEPLAR/UFMG

Como podemos observar nas Figuras 1 e 2, os registros de comércio exterior do Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior aponta que, entre 1997 ente 2010, a extração mineral de Itabira encontrou o seu apogeu. E, a partir de então, decresceu de forma significativa e se estabilizou

É nesse contexto que a provocação inicial ganha densidade, o que essa cidade foi, o que ela é e o que ainda pode ser? Nos anos recentes, houve uma vertiginosa queda da produção mineral em Itabira e a economia da cidade não entrou em colapso, como veremos a seguir.

Existe um quadro diferente na dinâmica econômica da cidade hoje, que aparece quando analisamos a evolução emprego do formal de todos os setores econômicos de Itabira.

Infográfico 1 : A diversificação do emprego em Itabira (2010–2024)

Fonte: RAIS, Ministério do Trabalho e Emprego ( MTE). Imagem gerado por IA : NotebookML

Mas o que então podemos sintetizar a partir da análise das informações que estão nas Figuras 1 e 2 e no Infográfico acima?

Primeiro que, a redução expressiva da principal atividade industrial não foi acompanhada por outros setores econômicos. Mais do que isto. O emprego formal entre 2010 e 2024 aumentou, embora exista um saldo negativo de -7.198 trabalhadores na indústria.

A segunda conclusão. A cidade não colapsou. Embora não tenha superado a sua dependência ao minério, houve uma resposta silenciosa e consistente.

A partir da década de 2010, os dados de emprego indicam um movimento gradual de diversificação econômica, com crescimento do setor de serviços e maior participação de atividades ligadas à educação, à saúde e à administração pública.

Esse movimento ajuda a explicar a percepção contemporânea da cidade. Itabira hoje oferece estruturas urbanas, serviços e padrões de qualidade de vida que a diferenciam regionalmente, funcionando, na prática, como um centro de serviços.

À luz da teoria dos lugares centrais, formulada por Walter Christaller, esse fenômeno ganha consistência. Cidades médias não se definem apenas por seu porte demográfico, mas pela capacidade de organizar fluxos, ofertar serviços e estruturar relações com seu entorno. Nesse sentido, Itabira amplia seu papel como polo regional, atendendo a um território mais amplo.

Essa interpretação dialoga com a tradição da geografia urbana mineira, especialmente com as contribuições de Oswaldo Bueno Amorim Filho, que demonstrou que cidades médias devem ser compreendidas por sua capacidade de articulação na rede urbana, e não apenas pelo tamanho populacional.

Infográfico 2: Indicadores de diversificação

Fontes: Ministério da Educação e Secretaria da Fazenda de Itabira.

O infográfico acima também ilustra uma nova “paisagem” para a economia de Itabira. Primeiro, existe uma consolidação do polo de conhecimento que está se ampliando com a expansão de três instituições: Unifei, Funcesi e UNA, com apontam os registros do MEC.

Analisando a evolução recente da Prefeitura, podemos observar que houve um extraordinário crescimento da Receita do Impostos sobre Serviços (ISS), que cresceu 275 % entre 2018 e 2024.

No Imposto de Comercialização de Mercadorias (ICMS), também observamos um grande crescimento (180%).

Como podemos observar na Tabela 1, a arrecadação de ICMS já é maior do que a de Cfem. Tal como ilustra o Gráfico 3, o ICMS é maior do que  a Cfem desde 2020. Uma contribuição significativa das cerca de 80 indústrias em atividade nos Distritos Industriais da cidade.

Tabela 1: Evolução da Arrecadação da Prefeitura Municipal de Itabira

Fontes: Ministério da Educação e Secretaria da Fazenda de Itabira.

Gráfico 3: Evolução da Arrecadação da Prefeitura Municipal de Itabira

É nesse ponto que emerge uma nova questão, levantada no próprio desenvolvimento deste ensaio: por que Itabira é uma cidade cara?

O custo de vida elevado, especialmente no preço da terra e dos aluguéis, não é um desvio. É um sintoma. Ele reflete a combinação de fatores estruturais: renda gerada pela mineração, centralidade regional, presença de serviços qualificados e uma oferta urbana superior à média das cidades do entorno.

Estudos indicam que o custo de vida em Itabira é superior ao de cidades mineiras de porte semelhante. Isso corrobora a tese de que a cidade concentra vantagens comparativas que a destacam regionalmente. Cidades em decadência tendem a perder valor. Itabira, ao contrário, mantém e até eleva seus preços.

Mas esse fenômeno carrega uma tensão. O encarecimento pode gerar efeitos colaterais relevantes, como concentração de renda, pressão sobre o mercado habitacional e risco de exclusão social. O mesmo processo que sinaliza dinamismo pode, se não for conduzido com inteligência, aprofundar desigualdades.

A trajetória recente de Itabira não é de ruptura, mas de transição. A mineração permanece central, tanto na arrecadação quanto na dinâmica econômica indireta que sustenta a cidade. O que muda, neste início de século, é a consciência dessa condição.

Soma-se a isso a adoção, pela Vale, de estratégias associadas ao conceito de minerar para fechar, no qual o encerramento da mina deixa de ser um evento final e passa a ser planejado desde a origem do empreendimento, com foco em eficiência e redução de passivos. As reservas atualmente indicam horizonte de exaustão por volta de 2053.

Esse dado recoloca o debate no lugar certo. O problema não é mais prever o fim. É decidir o que fazer com o tempo que resta.

A mineração continua sendo central. Mas já não organiza, sozinha, o destino da cidade.

O desafio contemporâneo não é substituir a mineração, mas utilizá-la como base para estruturar um novo ciclo econômico. Esse ciclo já se manifesta, sobretudo na expansão do setor de serviços, com destaque para a saúde e a educação, que reposicionam Itabira como um centro regional mais complexo.

A diferença é sutil, mas decisiva. Não se trata de negar o passado. Trata-se de construir o futuro com os frutos reais do presente.

Neste sentido, vale lembrar que na sua história recente, frente ao desafio da exaustão, o conjunto da cidade, governo, entidades representativas e atores diversos, tomaram inciativas que permitiram a superação que demonstramos aqui.

Como a criação de uma agência de desenvolvimento, a instituição do Fundo de Desenvolvimento Econômico e Social de Itabira (Fundesi), o projeto Itabira 2025 e agora o Plano Estratégico Itabira Sustentável.

Neste caso, a união  gera força, movimento e, é certo,  produção de nova realidade.

*Denes Martins da Costa Lott é advogado especialista em Direito Ambiental e Minerário, mestre em sustentabilidade socioeconômica e ambiental.

Trabalhou na Vale por mais de duas décadas e foi secretário municipal de Meio Ambiente de Itabira. É autor do livro O Fechamento de Mina e a Utilização da Cfem.

**Leonardo Pontes Guerra é economista formado pela UFMG, com atuação em economia regional, planejamento público e sistemas de informação.

Atuou no CEDEPLAR/UFMG, na Prefeitura de Belo Horizonte, no BNDES e no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Foi secretário municipal de Desenvolvimento Econômico de Itabira em 2025.

Bibliografia e referências

AMORIM FILHO, Oswaldo Bueno. Estudos sobre cidades médias em Minas Gerais.

CALDEIRA, Jorge. História da riqueza no Brasil.

CHRISTALLER, Walter. Central Places in Southern Germany.

MAQUIAVEL, Nicolau. História de Florença.

Registros do Arquivo Público Mineiro.

Dados da RAIS – Ministério do Trabalho.

INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais.

Dados fiscais do Município de Itabira.

Séries de comércio exterior – DataViva/Cedeplar/UFMG.

Estudos sobre cidades médias em Minas Gerais.

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