Funcesi faz balanço positivo na Câmara e adianta interesse em administrar o HMCC para ter hospital universitário

Foto: Cecília Braga

Crescimento da fundação é destacado, mas persistem dúvidas sobre bolsas e sobre uma possível gestão hospitalar

Carlos Cruz

O presidente da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi), Maurício Guimarães Mendes, compareceu à reunião da Câmara Municipal de Itabira nessa terça-feira (17) para apresentar um breve balanço dos mais de 30 anos da instituição. A Câmara é uma das mantenedoras da Funcesi, ao lado da Diocese de Itabira, da Prefeitura e da Vale.

Mendes destacou o crescimento da instituição com o advento do Centro Universitário (UNI-Funcesi), e com a faculdade de Medicina. Atualmente a instituição de ensino superior já são cerca de 1,9 mil estudantes matriculados em 12 cursos de graduação, sendo seis na área da saúde.

O curso de Medicina, iniciado em 2019, já conta com 300 estudantes. “O curso de Medicina foi um divisor de águas para a nossa instituição.”

Bolsas sem detalhamento e impacto social

Ao apresentar os números da instituição, Maurício Mendes informou que dos estudantes universitários matriculados, 390 são bolsistas, sendo 260 com gratuidade integral e 130 com bolsas parciais.

“Muitas vezes as pessoas criticam dizendo que a Funcesi não tem bolsa. Aqui está a resposta: são 300 bolsas disponíveis.”

Entretanto, o presidente da Funcesi não esclareceu quantos desses benefícios são para bolsistas da própria instituição e quantos são de programas federais como Fies e ProUni.

Também não informou quantos bolsistas estão matriculados no curso de Medicina, cuja mensalidade ultrapassa R$ 8 mil, valor que torna o acesso restrito sem apoio financeiro.

Essa ausência de detalhamento é relevante porque a Funcesi é uma instituição comunitária, mas de direito privado, sem fins lucrativos, que desde sua fundação recebe recursos públicos e privados.

A Prefeitura e a Vale estão entre os principais mantenedores. Só a Vale já destinou R$ 18,7 milhões para a estruturação do curso de Medicina, em convênios que financiaram laboratórios e construção de novo espaço acadêmico.

A Prefeitura também injetou recursos iniciais, como também para viabilizar a aprovação do curso de Medicina.

Em outras universidades comunitárias do país, como a PUC-Rio ou as comunitárias do Rio Grande do Sul, a política de bolsas é detalhada em relatórios públicos, com critérios socioeconômicos claros e prestação de contas sobre o uso de recursos.

Leia para saber mais:

Com novos processos de gestão, PUC-Rio quer aumentar oferta de bolsas de estudo – Diário do Rio de Janeiro

E também aqui:

Relatório legislativo embasará políticas de bolsas e incentivo à permanência em universidades comunitárias | GZH

A comparação mostra que instituições comunitárias de direito privado em outras regiões do Brasil adotam práticas de transparência mais robustas, com relatórios públicos, audiências e detalhamento da origem das bolsas, assim como da aplicação dos recursos recebidos e aplicações diversas, inclusive com folha de pagamento.

Distanciamento

Ao não discriminar a origem e a distribuição das bolsas, a Funcesi se distancia desse padrão de transparência. E isso precisa ser corrigido com urgência, sob pena de comprometer sua credibilidade como instituição comunitária.

No caso específico do curso de Medicina, a falta de clareza reforça a percepção de que o acesso continua restrito a estudantes de famílias de renda alta ou média-alta, muitos de outras cidades.

Isso contrasta com a missão comunitária da Funcesi, que deveria ampliar o acesso e garantir que jovens de Itabira e região possam ingressar em cursos de alto custo sem depender exclusivamente de programas federais e ou de recursos familiares.

Essa contrapartida deveria ocorrer por meio da distribuição de bolsas próprias, além das sustentadas pelos investimentos públicos e privados que a instituição recebe.

A transparência é imprescindível para a Funcesi não correr risco de ser vista como uma universidade privada de elite – e não como uma instituição comunitária.

Funcesi quer voltar a administrar o Carlos Chagas
Maurício Mendes manifesta na Câmara interesse da Funcesi em voltar a administrar o HMCC para transformá-lo em hospital universitário (Foto: Reprodução/Ascom/CMI)

Maurício Mendes adiantou que a Funcesi pretende participar do chamamento público que deve ocorrer em breve para definir a nova gestora do Hospital Municipal Carlos Chagas (HMCC), hoje administrado pela Fundação São Francisco Xavier.

O objetivo, segundo ele, é transformar o hospital em universitário, vinculado ao curso de Medicina. “O hospital é fundamental para a continuidade da formação médica.”

O HMCC atende 100% SUS e é referência na região, com um padrão de atendimento que raramente tem sido questionado.

Tanto é assim que muitos pacientes conveniados têm recorrido ao hospital municipal em vez de buscar atendimento no Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), que também atende SUS, particulares e convênios.

Esse reconhecimento reforça a necessidade de preservar a qualidade do serviço no HMCC, qualquer que seja a decisão sobre sua gestão. Uma eventual mudança de administração não pode comprometer esse padrão.

A possibilidade de a Funcesi reassumir o hospital, portanto, levanta dúvidas, até pela experiência passada, quando a instituição de ensino esteve à frente da gestão – e não foi bem-sucedida.

Questionado sobre o tema, o prefeito Marco Antônio Lage (PSB) disse que está sendo avaliada a possibilidade de a Funcesi voltar a administrar o Carlos Chagas.

Entretanto, adianta que essa possibilidade é remota. “Mas eu me comprometi a colocar os estudos em discussão. A ideia é fazer o hospital universitário, que é necessário, mas sem ser administrado pela Funcesi.”

Recursos da Vale e expansão de atendimento

A Funcesi recebeu R$ 18,7 milhões da Vale para estruturar o curso de Medicina. Foram R$ 8,8 milhões em 2023 para o laboratório de simulação realística – e mais R$ 9,9 milhões em 2025 para construção de novo prédio com salas e laboratórios.

Os aportes fazem parte do programa Itabira Sustentável, voltado para Itabira não correr risco de virar cidade-fantasma com a exaustão mineral, prevista para 2041.

Maurício Mendes destacou, no breve balanço que fez na tribuna da Câmara, que os investimentos permitiram ampliar a infraestrutura e projetar novos atendimentos ao público de Itabira e região.

A previsão é que, até 2028, os cursos da área da saúde atendam cerca de 38 mil pacientes em diferentes especialidades, incluindo pediatria, clínica médica, ginecologia e pequenas cirurgias.

Câmara sem contrapontos

Após o balanço apresentado por Maurício Mendes na Tribuna da Câmara, os vereadores manifestaram apoio à Funcesi.

O presidente da Câmara, Carlinhos Sacolão (Solidariedade), destacou que a residência médica pode reduzir custos da saúde municipal. “O estudante de Medicina que está na residência, além de aprender, contribui para amparar a nossa sociedade”, disse.

Seu colega de partido, Marquinhos da Saúde (Solidariedade), lembrou que a Câmara é uma das mantenedoras da instituição – e reforçou o seu compromisso de apoio.

Outros vereadores também se manifestaram, mas em tom semelhante, sem apresentar questionamentos ou contrapontos às informações apresentadas pelo presidente da Funcesi.

Pontos de atenção

Sem dúvida, a Funcesi tem papel relevante na formação superior em Itabira e região.

Mas, como instituição comunitária de direito privado, que recebe recursos públicos e privados, precisa detalhar com mais objetividade sua política de bolsas e a aplicação dos aportes recebidos.

A transparência nesse ponto é indispensável para que se cumpra a função social que justifica sua natureza comunitária.

Transformar o HMCC em hospital universitário pode ser necessário para garantir a continuidade do curso de Medicina, sobretudo se essa condição não puder ser viabilizada no HNSD.

No entanto, a possibilidade de a Funcesi reassumir a administração do Carlos Chagas levanta dúvidas.

É que o histórico negativo da instituição quando esteve à frente do hospital pesa contra essa alternativa e exige cautela.

Sendo assim, qualquer decisão precisa considerar não apenas os interesses acadêmicos, mas sobretudo a manutenção da qualidade do atendimento SUS mo HMCC, que hoje é referência na região.

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