As malas com rodinhas e o dilema das cidades mineradas

Foto: Freepik

Durante décadas, viajamos carregando malas pesadas sem questionar. Bastou alguém colocar rodinhas para mudar completamente a experiência de viajar. Talvez o desafio das cidades mineradas não seja tão diferente

Por Denes Martins da Costa Lott*

Quando viajo e passo por aeroportos ou rodoviárias, uma cena chama atenção, daquelas tão óbvias que passam despercebidas: ninguém mais carrega malas. Pequenas, grandes, rígidas ou flexíveis, não importa. Todas têm rodinhas.

Já completei 60 anos. Não é uma idade antiga, mas é suficiente para ver o mundo mudar em coisas muito simples. E eu me lembro bem: durante boa parte da vida, malas não tinham rodinhas. Viajar era, literalmente, carregar peso.

Como malas e rodas existem há tempos milenares, pesquisei sobre a origem das malas com rodinhas e descobri que, por muito tempo, convivemos com malas pesadas, apoiadas apenas em alças que exigiam esforço constante. Até que, depois de anos, alguém teve uma ideia simples: colocar rodinhas nas malas.

E tudo mudou.

O primeiro registro formal do invento é atribuído ao americano Bernard Sadow. Em 1970, voltando de férias com a família, ele estava em um aeroporto de Aruba carregando duas malas pesadas. Ao observar um carrinho de bagagem, teve um pensamento direto: por que não colocar rodas na própria mala?

Adaptou uma mala grande, acrescentou quatro rodinhas e uma alça. Em 1972, recebeu a patente nos Estados Unidos.

Mas a invenção não foi imediatamente adotada.

O motivo é curioso. Muitos executivos da época consideravam que puxar mala transmitia uma imagem de fraqueza ou pouca elegância. Preferiam continuar carregando malas.

A ideia era boa. O mundo é que ainda não estava pronto.

A virada ocorre em 1987, com Robert Plath, piloto da Northwest Airlines. Ele cria a Rollaboard, com duas rodas, alça telescópica e formato vertical, essencialmente o modelo que usamos até hoje. Plath funda a Travelpro uma fabfrica de malas, que inicialmente, vende para pilotos e comissários.

Depois, os passageiros observam, percebem a praticidade e a adoção se espalha.

Nos anos 1990, a mala com rodinhas se torna padrão mundial.

Talvez tenha até contribuído, de forma silenciosa, para tornar mais fluido o deslocamento global, assim como os elevadores viabilizaram os edifícios altos entre os séculos XIX e XX.

Essa imagem leva a pensar nas cidades mineradas. Itabira, por exemplo.

Não se trata de uma comparação forçada. É o mesmo tipo de problema.

Em diferentes medidas, essas cidades vivem um dilema conhecido. Durante décadas, recebem uma receita relevante da mineração, com geração de emprego, renda e dinamismo econômico.

Mas essa atividade tem uma característica estrutural que não pode ser ignorada: é finita.

O recurso se esgota. A atividade diminui. E o que permanece é o território transformado, os passivos ambientais, as estruturas herdadas e, muitas vezes, uma economia que precisa se reinventar.

Permanece o peso.

As cidades têm alças. Dispõem de instrumentos, receitas, políticas públicas, compensações financeiras, Cfem, planos diretores. Tudo isso ajuda a sustentar o problema.

Mas, muitas vezes, essas alças são desconfortáveis. Exigem esforço contínuo. Resolvem parcialmente. Não eliminam o peso.

Faltam, em muitos casos, as rodinhas.

Curiosamente, as próprias rodinhas das malas dependem de bens minerais para existir.

Na mesma direção, as cidades mineradas dependem hoje de algo semelhante ao que Bernard Sadow teve em 1970: a capacidade de enxergar uma solução simples para um problema antigo.

Não necessariamente uma solução grandiosa.

Mas um mecanismo funcional, direto, que permita sair do lugar.

As soluções para esses dilemas estão amplamente descritas em manuais, relatórios técnicos, planos estratégicos e diretrizes internacionais.

Há uma vasta literatura sobre fechamento de mina, diversificação econômica, sustentabilidade e requalificação territorial. Tudo isso é importante.

Mas há um ponto que, por vezes, passa despercebido.

A inovação nem sempre está na complexidade. Muitas vezes, ela surge quando alguém olha para um problema antigo e enxerga o óbvio sob outra perspectiva.

Foi assim com as malas.

Colocar rodinhas não elimina o peso. Apenas muda a forma de lidar com ele.

O desafio das cidades mineradas pode ser compreendido da mesma forma.

Não se trata apenas de substituir receitas futuras ou cumprir exigências legais. Trata-se de transformar o peso herdado em movimento.

Isso envolve antecipar o fechamento de mina, dar novo uso a áreas mineradas, valorizar o patrimônio histórico, investir em novas vocações econômicas e construir instrumentos que convertam riqueza finita em sustentabilidade duradoura.

Na prática, esse movimento não acontece sozinho.

Exige método, leitura técnica e, principalmente, capacidade de integrar o que muitas vezes está disperso: direito, território, economia e política pública.

É nesse ponto que o processo costuma encontrar maiores dificuldades.

Nada disso é inalcançável.

Mas também não acontece apenas porque está bem estruturado em relatórios ou manuais, assim como as malas passaram décadas sendo carregadas no braço, mesmo com a roda já disponível.

As cidades mineradas já contam com diagnósticos, instrumentos e caminhos possíveis. Em muitos casos, o desafio não está na ausência de soluções, mas na articulação entre elas.

É um processo que exige alinhamento, tempo e escolhas bem conduzidas.

A solução para as cidades mineradas pode não ser simples.

E o óbvio, muitas vezes, permanece imperceptível por longos períodos.

Talvez o próximo passo não esteja em novas formulações, mas em conseguir olhar para o que já está posto de forma integrada, conectando pontos que ainda aparecem dispersos.

Como ocorreu com as malas, em algum momento alguém enxerga de outra forma. E, a partir daí, o caminho pode  começar a se abrir.

*Denes Martins da Costa Lott é advogado, mestre em Sustentabilidade Socioeconômica e Ambiental, com atuação nas áreas de Direito Ambiental e Direito Minerário. Foi secretário municipal de Meio Ambiente de Itabira e desenvolve projetos e consultorias voltados à regulação ambiental, mineração e desenvolvimento sustentável de territórios.

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1 Comentário

  1. Na gestão do prefeito Li, década de 90, ele já pensava na sustentabilidade da cidade de Itabira, sem a CVRR, atual Vale. Investiu no turismo, principalmente focado na “cidade do poeta Carlos Drummond”, e na possibilidade do da agroindústria, ao criar a escola secundária Ipocarmo. Infelizmente Itabira não teve pessoas com a mesma visão futurista que ele.

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