E se ainda “chover” ouro no Pontal
Foto: Nandim Gonçalves
Vale volta a negar a ocorrência, como já havia feito no passado, até ser desmentida pela eclosão do garimpo na grota do Minervino
Na reunião do Codema, nessa quinta-feira (12), antes de ser aprovada a anuência para a Vale dar continuidade ao pedido de licença ambiental estadual para reaproveitar rejeitos de minério de ferro depositados em suas barragens, a mineradora respondeu algumas das críticas, não todas.
Reafirmou, por exemplo, que o projeto tem viabilidade apenas para o minério de ferro, descartando novamente o aproveitamento de ouro que, como se sabe, está presente junto aos itabiritos – e também nos rejeitos.
Essa possível exploração foi, inclusive questionada pela Agência Nacional de Mineração (ANM), em julho de 2020, antes de aprovar o novo plano econômico para as minas de Itabira:
- Apresentar um histórico da lavra do minério de ouro no processo 577/1936. Discutir a situação atual dos recursos e reservas deste bem mineral na área da poligonal desse processo. Caso seja de interesse da Vale manter esta substância no processo, providenciar a aprovação de uma revalidação de reserva e de um plano de aproveitamento econômico para minério de ouro.

O gerente da mineradora, Diogo Prata, foi categórico ao negar valor econômico para possível exploração. “A ocorrência de ouro nos rejeitos é insignificante, não tem valor econômico. O foco do projeto é exclusivamente o ferro, que apresenta teor médio de 37%”.
A afirmação remete ao início da década de 1980, quando o então superintendente das Minas de Itabira, Mário Pierry, declarou em entrevista ao jornal O Cometa que o ouro incrustado junto aos itabiritos, e nos rejeitos depositados na Grota do Minervino, no Pontal, não tinha valor econômico, por se tratar de miligramas por tonelada.
Pouco depois, no entanto, estourou o garimpo de ouro na Grota do Minervino, reunindo mais de 5 mil trabalhadores desempregados de Itabira e também vindos de outras regiões.
A pressão social e a descoberta prática da viabilidade pelos garimpeiros levaram a Vale a estruturar o Projeto Ouro, montando uma usina de processamento que chegou a produzir cerca de 500 quilos anuais, colocando Itabira como a segunda maior produtora aurífera de Minas Gerais, atrás apenas de Morro Velho, em Nova Lima.
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Drummond chegou a ironizar o posicionamento da Vale. Em sua coluna no Jornal do Brasil, a ocasião, de 22 de outubro de 1982, em sua na crônica Chove ouro em Itabira, republicada pelo O Cometa, em tom de reivindicação, escreveu como se fosse a Vale falando num lampejo de generosidade com a cidade onde nasceu:
“- Em rala compensação pelo que tiramos do município, em 41 anos de sucção da sua riqueza, vamos ajudar os garimpeiros! Vamos dar-lhes assistência sanitária e um servicinho de prevenção de acidentes, e facilitar-lhes a sindicalização!”
“A egrégia Câmara Municipal, comovida com esse rasgo de generosidade, baterá palmas:
– Bravos! Muito bem! Até que enfim, ilustre Companhia, a senhora se lembrou de dar alguma coisa, em vez de tirar da gente!”

Drummond, o filho mais ilustre de Itabira, que nunca se esqueceu de lembrar de sua terra natal, contou aos seus leitores de todo o país como foi que apareceu o ouro na Grota do Minervino.
“Para os pobres, tudo que é bom cai do céu; o resto fica por conta da falta de sorte, ou do Diabo. Na verdade, o ouro de Itabira não baixou das nuvens; simplesmente vem incrustado no rejeito de ferro explorado por uma grande estatal, a Companhia Vale do Rio Doce.”
E prosseguiu o cronista itabirano:
“A empresa sabia do ouro e estudara a fundo a possibilidade de explorá-lo economicamente. Concluiu que não era rentável, e deixou-o rolar serra abaixo, depois de montar uma usina destinada a elevar o teor ferrífero do itabirito, última reserva de minério a substituir a hematita exaurida.”

E, como Antônio Alves de Araújo, o cismado Tutu Caramujo, ex-presidente da Câmara e prefeito de Itabira (1869/72), que já cismava com a “derrota incomparável”, Drummond viu a Vale se preparando para deixar a cidade onde nasceu e cresceu para se tornar uma das maiores mineradoras do mundo.
“E manda-se progressivamente para Carajás, legando a Itabira o espetacular vazio de sua paisagem e umas migalhas de ouro (cerca de 50 miligramas por tonelada de rejeito). Já não é grande empregadora, e sim empresa cautelosa que se retira, em busca de paragens mais rendosas.”
É assim que a história mostra que a mesma justificativa de “insignificância econômica” já foi usada no passado, tanto para o ouro, como para o rejeito depositado nas barragens.
Mas a Vale acabou sendo desmentida pela realidade da exploração de ouro pelos garimpeiros na grota do Minervino – e também pela sua posterior produção com o Projeto Ouro.
Situação análoga ocorreu também em 2013, quando a Vale declarou oficialmente ao DNPM que os rejeitos das barragens de Itabira não tinham valor econômico, apresentando uma declaração negativa.
Agora, em 2026, a resposta oficial permanece a mesma, repetindo o discurso de quatro décadas atrás: foco exclusivo no ferro e nenhuma perspectiva de aproveitamento do ouro.
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