De mata ameaçada a parque estadual, Limoeiro celebra 15 anos e faz homenagens com entrega da Medalha Raízes da Conservação
Fotos: Roneijober Andrade
Solenidade reconhece 147 lideranças, empresas e instituições que transformaram ameaça de destruição em símbolo de resistência, preservação e pertencimento comunitário com a criação da unidade de conservação estadual
Nesse sábado (7), o Parque Estadual Mata do Limoeiro, em Ipoema, distrito de Itabira, celebrou seus 15 anos de criação com a entrega da Medalha Raízes da Conservação a 147 homenageados. A cerimônia reuniu autoridades, moradores, representantes de instituições e empresas que marcaram a história da unidade de conservação.
Na abertura, o gerente Alex Amaral Oliveira destacou o papel decisivo de três moradores de Ipoema: Tomas Silveira, Raimundo Afonso e Ney Azevedo (in memoriam, representado pela filha Jacqueline Azevedo).
Essas lideranças se mobilizaram em 1989 contra a derrubada das matas das fazendas Limoeiro e Santa Rosa, já em fase de regeneração após terem sofrido corte raso para produção de carvão vegetal na década de 1930 – e que novamente estavam ameaçadas. “O que poderia ter se tornado carvão virou símbolo de resistência”, afirmou o gerente do parque.
Alex lembrou que a mobilização comunitária impediu o desmatamento e levou ao tombamento municipal da área, no primeiro ano da administração do prefeito Luiz Menezes (1989–1992). Posteriormente, a proteção foi ampliada como área de preservação ambiental na gestão de Li Guerra (1993-1996), até ser transformada em parque estadual em 2011.
A criação da unidade de conservação contou com a participação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), Prefeitura de Itabira e da Vale, que adquiriu as fazendas Limoeiro e Santa Rosa como compensação por desmatamentos realizados para abrir frentes de lavra em Itabira.
Em 2013, novas áreas foram incorporadas, também adquiridas pela minerdora, elevando a extensão do parque para mais de 2 mil hectares.
A voz da resistência

Em entrevista a este site, o ex-administrador de Ipoema e ex-vereador Raimundo Afonso de Araújo Lima relembrou os dias tensos de 1989, quando máquinas já estavam posicionadas para iniciar a derrubada da mata. “Foi uma guerra. Lutamos contra um poder muito forte. Se não fosse o movimento de resistência, não teria mato”, disse.
Raimundo Afonso recordou que os desmatadores chegaram a derrubar cerca de 10 hectares de floresta, com 22 motosserras em operação simultânea em um só dia, antes de ocorrer o tombamento municipal.
“O som ensurdecedor das lâminas ecoava pelo vale, misturado ao cheiro de madeira recém-cortada.”

A comunidade reagiu rapidamente. A imprensa foi acionada, chamaram a tv Globo, que deu notícia em rede nacional, não sem antes o jornal O Cometa Itabirano publicar nota, em janeiro de 1989, denunciando a iminência do desmatamento que, na época, tinha respaldo na frágil legislação ambiental.
“Ganhar tempo foi essencial. Conseguimos suspender licenças, envolver a Polícia Civil e criar entraves legais para impedir que a mata fosse destruída”, contou o ex-administrador de Ipoema.
Raimundo Afonso citou também o ex-delegado Ailton Reis que foi fundamental nesse processo, ao recolher as licenças ambientais suspeitas de desmatamento para averiguação, o que deu fôlego à resistência.
“Foi assim que conseguimos parar as motosserras. Apresentei projeto de lei e foi criada área de preservação ambiental, o que nos deu mais garantias”, relembrou.
Para isso, a mobilização da comunidade ipoemense foi fundamental, mas a pressão econômica continuou. “Recebi propostas para desistir da causa, vantagens maravilhosas. Mas não aceitei. Era patrimônio coletivo, não era minha propriedade. Hoje, o que começou com 1.300 hectares chega a mais de 2 mil. É legado para as futuras gerações”, conclui emocionado.
Mas a garantia de preservação só ocorreu de fato e direito, quando a Vale adquiriu as fazendas Limoeiro e Santa Rosa, garantindo a incorporação ao parque estadual, criado anos mais tarde, em 2011.
Estradas-Parque e futuro sustentável

O prefeito Marco Antônio Lage (PSB) também reforçou a importância da comunidade de Ipoema na defesa da mata. E anunciou investimentos em infraestrutura para ampliar o acesso aos atrativos naturais dos distritos de Itabira.
“O Parque do Limoeiro já é referência entre os parques estaduais. Agora vamos avançar com o projeto Estradas-Parque, calçando trechos das estradas vicinais de Ipoema e Senhora do Carmo para que nenhum turista precise de veículo 4×4 para chegar às nossas belezas naturais”, anunciou.
Lage destacou ainda que o turismo rural e ecológico é alternativa econômica real diante da iminente exaustão da mineração em Itabira. “O parque é centro de pesquisa, de saberes tradicionais, de educação ambiental. Daqui podem sair estudos para recuperar áreas degradadas pela mineração. Em vez de consultorias milionárias, podemos usar os conhecimentos locais e acadêmicos aqui gerados para restaurar o nosso território minerado”, disse.
O prefeito também trouxe memórias pessoais, lembrando que sua mãe nasceu dentro da área que hoje compõe o parque. “Esse lugar é parte da nossa vida. O cheiro, o clima, o sentimento de pertencimento. É isso que nos move a conservar e a investir em alternativas sustentáveis para o futuro de Itabira”, declarou.
Consenso e políticas públicas ambientais

Representando o governador Romeu Zema, o secretário estadual de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais, Lyssandro Norton Siqueira, fez uma reflexão sobre a origem da causa ambiental no cenário internacional, lembrando a Conferência de Estocolmo, em 1972.
“A temática ambiental surge de um conflito, mas só se sustenta pelo consenso. O Parque do Limoeiro é exemplo de unidade de conservação que concilia interesses, protege a biodiversidade, viabiliza pesquisa científica e garante qualidade de vida às comunidades do entorno”, afirmou.
Ele destacou que a gestão ambiental exige equilíbrio entre economia, meio ambiente e ser humano. “Se não cuidarmos dos recursos hídricos, do saneamento e do licenciamento no entorno, não teremos biodiversidade nem qualidade de vida. O Limoeiro mostra que é possível conciliar tudo isso com participação comunitária e políticas públicas bem estruturadas”, enalteceu.
Afeto e conservação

A supervisora regional do IEF, Núbia Batista, resumiu o significado do Parque do Limoeiro em duas palavras: “educação ambiental e pertencimento”.
Segundo ela definiu, o parque é mais do que uma área protegida – tornou-se referência para todo o território do Rio Doce, inspirando escolas, comunidades e voluntários.
Núbia acentuou que cada homenageado tem uma história de dedicação e que, juntos, formam um mosaico de ações que sustentam a unidade de conservação ambiental.
“É gratificante ver como o parque abraça e é abraçado pelas pessoas. Ele nos ensina que conservar é também criar vínculos e fortalecer identidades”, disse ela, destacando que a programação dos 15 anos se estenderá até junho, com atividades voltadas para ampliar esse sentimento coletivo.

A promotora de Justiça, Giuliana Talamoni Fonoff, reforçou que “toda floresta que permanece de pé conta a história de pessoas que decidiram cuidar”.
Ela lembrou sua trajetória de mais de duas décadas no Ministério Público, acompanhando de perto os desafios e conquistas da proteção ambiental em Itabira e região. E ressaltou que a conservação nunca é obra de um indivíduo isolado, mas resultado da soma de esforços entre instituições, técnicos e comunidades.
“O Parque do Limoeiro é patrimônio da sociedade. Ele protege a biodiversidade, preserva paisagens e oferece oportunidades de educação ambiental que formam novas gerações. Celebrar seus 15 anos é também assumir a responsabilidade de continuar cultivando essas raízes para que se tornem cada vez mais fortes”, afirmou.

Já a diretora-geral do IEF, Letícia Capistrano Campos, disse que o trabalho no instituto vai além da função pública. “Aqui não é apenas um emprego, é uma causa”.
Para ilustrar esse sentimento, ela compartilhou uma cena vivida em casa, poucas horas antes da solenidade. Sua filha de três anos, Helena, apareceu com um brinquedo em forma de pássaro, um bicudo, quando disse à mãe que gostaria de estar “no quarto da vovó”.
Letícia contou que se surpreendeu com a espontaneidade da menina, que já associa o pássaro à memória familiar e ao ambiente natural. “Esse gesto simples mostra como o sentimento de pertencimento nasce cedo. É o mesmo que move cada servidor, voluntário e morador que abraça o parque. A conservação desperta vínculos afetivos que atravessam gerações”, afirmou.
Com esse relato pessoal, Letícia reforçou que o Parque do Limoeiro não é apenas um espaço de preservação, mas também de afeto e identidade coletiva. “O que se constrói aqui é um legado que inspira as crianças, que aprendem desde cedo a valorizar a natureza como parte da própria vida”, concluiu.
Medalha Raízes da Conservação
A cerimônia culminou com a entrega da Medalha Raízes da Conservação, que reconheceu 147 pessoas, instituições e empresas que contribuíram para preservação das florestas das fazendas Limoeiro e Santa Rosa, culminando com a criação e instalação do parque estadual.
Segundo o gerente do parque, a medalha simboliza pertencimento, compromisso e legado. “São raízes que sustentam o parque e garantem que ele continue florescendo como patrimônio público e referência de resistência, esperança e renovação”, destacou Alex Amaral.
Espaço de preservação, exemplo de mobilização e resistência
O Parque Estadual Mata do Limoeiro, com mais de 2 mil hectares de Cerrado e Mata Atlântica, é hoje espaço de preservação, pesquisa, lazer e cultura. Trilhas, cachoeiras e projetos comunitários como Natal nas Comunidades, Ecofolia e Cinema no Parque consolidaram a unidade como lugar de encontro entre natureza e sociedade.
Celebrar seus 15 anos é reafirmar que a luta contra a sanha da motosserra se transformou em legado de pertencimento e cidadania. O Limoeiro tornou-se símbolo de que a resistência comunitária pode gerar futuro sustentável para Itabira e para Minas Gerais.
Mais do que uma efeméride, a celebração é um chamado à mobilização e resistência, capaz de salvar as matas das fazendas Limoeiro e Santa Rosa. E que deve servir de inspiração à cidade de Itabira, que hoje enfrenta o desafio da exaustão da mineração.
Antes que seja tarde, é preciso transformar a herança mineral em oportunidade de novas possibilidades econômicas, sociais e culturais.
Só assim o fim de um ciclo não se converterá em uma derrota incomparável, uma expressão que ecoa em Drummond, caso os itabiranos continuem cruzando os braços vendo a vida passar devegar.
E que aqui ganha novos sentidos, não apenas a perda da mineração, mas também o risco de perder a chance de reconstruir o futuro do município em bases mais sustentáveis, humanas e duradouras.









