Darcy Ribeiro, o antropólogo que reinventou o carnaval e explicou o Brasil
Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, contemplam uma de suas maiores realizações: o espaço que une carnaval e educação
Foto: Reprodução/ Fundação Darcy Ribeiro
Da Sapucaí às aldeias indígenas, um legado que une antropologia, festa, educação e identidade nacional
Por Valdecir Diniz Oliveira*
Em 1984, Darcy Ribeiro (1922-1997) deu forma a um sonho coletivo, que foi transformar o carnaval carioca em espetáculo permanente. Com a força política de Leonel Brizola (1922-2004) e o traço genial de Oscar Niemeyer, nasceu o Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Essa grande obra, concluída em apenas 156 dias pelo trabalho de mais de 2,5 mil operários, conta com uma passarela de 700 metros que se tornou palco dos desfiles das escolas de samba, tendo sido batizada, oficialmente, de Passarela Professor Darcy Ribeiro.
Mais do que um espaço monumental para a folia, o Sambódromo carrega também a marca da educação. Sob suas arquibancadas funcionam seisescolas públicas municipais, que atendem cerca de 2 mil crianças e jovens da região central do Rio de Janeiro.
São unidades de ensino infantil e fundamental que oferecem aulas regulares e atividades complementares, integradas ao cotidiano da comunidade.
Essa presença escolar dá ao Sambódromo uma dimensão única e indivisível, tornando-se o mesmo espaço que abriga o maior espetáculo popular do país, com a magia do carnaval, em um lugar de formação cidadã.
O impacto social é profundo. Ao unir festa e ensino, o Sambódromo traduz a utopia de Darcy Ribeiro de que cultura e educação são inseparáveis.
Ao lado de Brizola, ele fez da Sapucaí não apenas a passarela do samba, mas também um símbolo da luta contra a exclusão e a segregação, mostrando que o Brasil pode reinventar-se ao valorizar sua diversidade e investir em cidadania.
O Povo Brasileiro e a matriz da diversidade
Em O Povo Brasileiro, Darcy Ribeiro sintetizou décadas de pesquisa e reflexão. Ali, ele descreve o Brasil como resultado da confluência de três matrizes: indígena, africana e europeia. “O Brasil não é uma cópia de nada. É uma nova Roma, feita de índios, negros e brancos”, escreveu.
Darcy via o carnaval como expressão dessa mistura criativa, uma festa que traduz a capacidade do povo brasileiro de reinventar-se.
Para ele, compreender o Brasil exigia reconhecer a força dos povos originários e a contribuição decisiva da cultura africana, sem negar o peso da colonização europeia.
Maíra e Quarup: a literatura como denúncia e celebração
Na literatura, Darcy Ribeiro também deixou marcas profundas. Maíra (1976) é um romance que expõe o drama dos povos indígenas diante da modernidade, mostrando tanto sua riqueza cultural quanto a violência da aculturação.
Ao lado de Quarup (1967), de Antonio Callado (1917-1997), tornou-se referência para quem busca entender a tragédia e a resistência dos povos originários.
Essas obras continuam atuais. Isso porque, em tempos de avanço do agronegócio e do garimpo sobre terras indígenas, lembram que a diversidade cultural brasileira está ameaçada.
Darcy denunciava essa destruição e, ao mesmo tempo, celebrava a vitalidade das culturas indígenas como parte essencial da identidade nacional.
O Brasil tem o privilégio de ainda dispor, em seu território, de povos que vivem modos de existência que remetem ao início de tudo. São comunidades que têm suas subsistências a partir da coleta, da pesca e de formas de sociabilidade ancestrais, como foi a humanidade em seus primórdios.
Darcy Ribeiro, em seus estudos, e em Maíra, mostrou como povos como os Urubu-Kaapor, os Kadiwéu e os grupos do Xingu mantêm práticas culturais que guardam a memória viva da origem humana.
Antônio Callado, em Quarup, situou sua narrativa justamente no Xingu, revelando a convivência entre missionários, sertanistas e indígenas, e expondo o choque entre mundos que coexistem no Brasil.
Ambos reforçam a tese de que nosso país abriga civilizações que ainda vivem em estreita relação com a natureza, preservando modos de vida que a humanidade conheceu em seus primórdios.
“Os índios são a parte mais autêntica do Brasil. Eles nos lembram que ainda somos capazes de viver em harmonia com a natureza e com os outros”, escreveu Darcy Ribeiro.
Essas narrativas literárias e antropológicas revelam que, ao lado da sociedade urbana e industrial, persistem povos que guardam a memória da origem, lembrando-nos que a diversidade cultural brasileira é riqueza – e também responsabilidade histórica.
Educação e política: o homem de ação
Darcy Ribeiro não se limitou às ideias. Foi ministro de João Goulart, criador da Universidade de Brasília. E, além do Sambódromo, sempre também ao lado de Brizola, foi idealizador dos CIEPs, escolas integrais que buscavam garantir educação de qualidade às crianças mais pobres.
Essa dupla, Darcy e Brizola, comprou brigas pesadas com o poder midiático de Roberto Marinho com a sua Rede Globo, que se opunham a seus projetos de educação integral e outras políticas públicas voltadas para reduzir a segregação social.
Essa força reacionária não os intimidou. Ao contrário, reforçou a convicção de que o Brasil precisava de escolas que abraçassem as crianças por inteiro, oferecendo não apenas ensino, mas alimentação, esporte, cultura e cidadania.
Um gênio brasileiro
Darcy Ribeiro foi antropólogo, educador, romancista e político. Mas, acima de tudo, foi um intérprete apaixonado do Brasil. Do Sambódromo à UnB, de O Povo Brasileiro a Maíra, passando por As Américas e a Civilização (1970), sua obra e sua ação revelam um país diverso, criativo e em permanente construção.
Nesse livro, Darcy analisou o desenvolvimento desigual das Américas e mostrou que o avanço dos Estados Unidos se deu sobre a base da expoliação e quase completa destruição das civilizações indígenas, um modelo de exclusão e genocídio que eliminou povos originários e abriu espaço para a expansão econômica.
Ao mesmo tempo, destacou que a tradição protestante, sobretudo puritana e anglicana, estimulava a alfabetização e a abertura de escolas, enquanto no Brasil, e em grande parte da América Latina, a herança católica privilegiava igrejas suntuosas em vez de escolas, perpetuando o atraso educacional. “Enquanto os protestantes abriam escolas, nós erguíamos igrejas”, acentuou.
Essa crítica se articula com sua obra literária. Em Maíra, Darcy expõe o drama da destruição cultural e espiritual dos povos indígenas, enquanto Callado, em Quarup, ambienta sua narrativa no Xingu para mostrar o choque entre mundos que coexistem no Brasil.
Ambos revelam que o desenvolvimento, quando construído sobre a exclusão e o extermínio, é também uma forma de empobrecimento humano.
Hoje, quando o samba ecoa na Sapucaí, é impossível não reconhecer que o Brasil deve muito a esse mineiro de Montes Claros.
Darcy Ribeiro uniu festa, ciência e política em um projeto maior que foi compreender e reinventar o Brasil.
Seu legado permanece vivo, lembrando que nossa maior riqueza está na diversidade e na capacidade de celebrar a vida — e que não há futuro digno sem o reconhecimento e a preservação dos povos que guardam a memória da nossa origem.
Viva o povo brasileiro, viva Darcy Ribeiro
Para fechar esse breve artigo nesta terça-feira gorda de carnaval, nada melhor do que ouvir o próprio Darcy Ribeiro.
“Fracassei em tudo o que tentei na vida. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, ele escreveu em O Povo Brasileiro.
Essa frase resume sua postura de sempre não medir esforços para transformar o Brasil, mesmo enfrentando derrotas políticas e resistências poderosas.
Em outro momento, sobre a educação, afirmou: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.”
Darcy sabia que a exclusão social era construída pela elite brasileira para manter tudo como está, mas isso ele denunciava sem medo.
Sua obra e sua ação mostram que compreender o Brasil era também lutar por ele – e assim transformar essa realidade com o fim da exclusão e da pobreza.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
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