Bad Bunny, o Super Bowl, e a resistência cultural das Américas contra o império do mal
Foto: Mark J.Terrill/ AP Photo.j/Divulgação
A apresentação histórica do porto-riquenho expôs a violência da política antimigratória de Trump, desmontou o mito da imparcialidade jornalística e fortalece um internacionalismo cultural que ecoa no Brasil e em toda a América Latina
Valdecir Diniz Oliveira*
Donald Trump reforçou o poder do ICE (Immigration and Customs Enforcement) e da CBP (Customs and Border Protection), transformando essas agências em instrumentos de repressão.
As operações resultaram em deportações em massa, prisões arbitrárias e mortes em confrontos nas fronteiras. Famílias foram separadas, crianças mantidas em centros de detenção e comunidades latinas vivem sob constante medo.
Organizações de direitos humanos denunciam que essa política não apenas desumaniza, mas também mata.
Esse cenário tem impacto global. A imagem dos Estados Unidos como “terra de oportunidades” foi substituída por manchetes sobre perseguição e violência institucionalizada.
O reflexo chega à América Latina, onde governos e sociedades veem a política migratória como expressão de um imperialismo que insiste em excluir.
Bad Bunny no Super Bowl: a cultura da resistência

Foi nesse contexto que Bad Bunny subiu ao palco do Super Bowl LX, em 8 de fevereiro de 2026. O cantor porto-riquenho, recém-vencedor de três Grammys, incluindo o de álbum do ano, o primeiro em espanhol a conquistar tal honraria, transformou o intervalo da final em um ato político.
Cantou em espanhol, em alto e bom som exaltou Porto Rico e citou países latino-americanos, numa verdadeira aula de geografia e identidade cultural.
Trump, evidentemente, não gostou. Reagiu com fúria, classificando a apresentação como “afronta à grandeza da América”.
Mas a provocação foi calculada. Bad Bunny expôs, diante de milhões de espectadores, que os EUA não são o centro exclusivo do continente, mas apenas mais um país dentro dele.
O mito da imparcialidade jornalística
A cobertura midiática do episódio escancarou o mito da imparcialidade jornalística, sempre apregoada pela imprensa norte-americana, a primeira a não praticar.
Veículos conservadores trataram o show como “provocação” ou “afronta”, enquanto veículos progressistas celebraram o gesto como resistência cultural. O mesmo fato, duas narrativas.
Isso mostra que imparcialidade é uma construção ideológica, não uma prática real. O jornalismo, ao narrar o embate entre Trump e Bad Bunny, escolhe um lado. E essa escolha molda percepções, votos e políticas.
O voto latino e a política norte-americana
A comunidade latina já representa cerca de 20% da população dos Estados Unidos e é o grupo demográfico que mais cresce.
Em 2024, cerca de 36 milhões de latinos eram elegíveis para votar, contra 32 milhões em 2020.
Esse crescimento significa que, a cada ano, mais de um milhão de novos eleitores hispânicos entram no sistema político.
Esse eleitorado já alterou resultados eleitorais recentes. Em estados como Nevada, Arizona e Geórgia, o voto latino foi decisivo para vitórias democratas em 2020 e 2022, mudando o equilíbrio político em regiões historicamente republicanas.
Em locais como Flórida e Texas, a disputa é acirrada, mostrando que não há hegemonia garantida: o voto latino é plural, mas sua força coletiva redefine o mapa político.
Às vésperas das eleições legislativas de novembro de 2026, o impacto da apresentação de Bad Bunny é claro: ela reforça a identidade cultural latina e pode influenciar a mobilização política desse eleitorado.
É assim que a resistência cultural se transforma em resistência política, capaz de alterar a correlação de forças no Congresso e enfraquecer o projeto de exclusão e neoimperialista de Trump.
Reflexos na América Latina e no Brasil
O efeito não se limita aos Estados Unidos. Bad Bunny anunciou que virá ao Brasil após o carnaval, levando o reggaeton a um público que já se conecta com a cultura latina.
Sua presença será mais que um show, vindo a ser uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre o artista e sobre um gênero musical que fortalece a identidade americana em sentido amplo, não imperialista, mas internacionalista. E, por certo, terá efeito político relevante também por aqui.
Para a América Central e do Sul, a ascensão de um artista latino em palcos globais é símbolo de resistência cultural e de afirmação identitária. O Brasil, com sua própria história de miscigenação e resistência, será palco de mais um capítulo dessa disputa simbólica.
A cultura contra o império
Enquanto Trump insiste em uma visão neocolonial, imperialista e excludente, Bad Bunny mostra que a cultura pode ser ponte. O Super Bowl, tradicionalmente visto como espetáculo de entretenimento e patriotismo, tornou-se palco de resistência cultural.
O voto latino, a música e a identidade cultural se entrelaçam em um movimento que desafia o imperialismo. Não se trata de imparcialidade, mas de escolhas que são claras entre exclusão e diversidade, entre repressão e resistência.
Bad Bunny, ao cantar em espanhol diante de milhões, não apenas provocou a ira de Trump. Ele mostrou que o império do mal pode ser confrontado com ritmo, geografia e identidade.
E, ao fim, a paz só prevalecerá quando a pluralidade das Américas for reconhecida como força global, não como instrumento de dominação, mas como expressão de sua própria história de resistência, miscigenação e diversidade.
Essa pluralidade, que nasce dos povos originários, dos migrantes e das culturas que se entrelaçam, é a verdadeira potência capaz de desafiar impérios e afirmar um futuro de liberdade.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
Assista: https://youtu.be/G6FuWd4wNd8








