Brumadinho, sete anos depois: tragédia-crime segue sem justiça e sem reparação plena

Foto: Antônio Cruz/
Agência Brasil

População ainda sofre com impactos físicos, mentais e econômicos; fiscalização da mineração continua frágil e acordos bilionários não se traduzem em mudanças estruturais

Sete anos após o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019, em Brumadinho, a tragédia-crime que matou 272 pessoas permanece como um marco doloroso da incapacidade do Estado brasileiro de transformar desastre em aprendizado.

Para Marco Antônio Lage (PSB), prefeito de Itabira e presidente da Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (Amig Brasil), o episódio deveria ter sido um exemplo para o país, mas o que se vê é a repetição dos mesmos erros.

“Governos Federal e estadual deveriam ter adotado medidas firmes para a reparação de danos. Sete anos depois, o que vemos é a repetição dos mesmos erros, com impunidade e fragilidade institucional.”

Marco Antônio Lage, presidente da Amig, lamenta a impunidade e repetição dos mesmos erros (Foto: Carlos Cruz)

Segundo ele, “acordos bilionários foram anunciados, portais de transparência criados e discursos oficiais repetidos, mas a realidade nos territórios minerados revela lentidão, falhas estruturais e ausência de mudanças profundas na governança da mineração”.

Além da ineficácia da Agência Nacional de Mineração (ANM), considerada falida, soma-se à omissão do poder público, o que perpetua um modelo que concentra riscos e custos nos municípios minerados.

Isso enquanto os benefícios permanecem desigualmente distribuídos. “O Brasil segue repetindo práticas que custam vidas, destroem territórios e corroem a confiança social na atividade mineral”, afirma Lage.

Justiça lenta e omissa

A percepção de impunidade é compartilhada pela população. Pesquisa PoderData realizada entre 27 e 30 de dezembro de 2025 mostra que 52% dos brasileiros defendem a prisão preventiva de ex-dirigentes da Vale e dos responsáveis técnicos pelo rompimento.

Isso enquanto 80% consideram a atuação da Justiça lenta ou omissa. Para 68% dos entrevistados, tragédias semelhantes podem se repetir no Brasil, revelando desconfiança tanto na capacidade de fiscalização e prevenção do Estado quanto nas práticas de segurança das empresas mineradoras.

Acordo bilionário sem resultados proporcionais

Em fevereiro de 2021 foi firmado um dos maiores acordos socioambientais da história do país, no valor de R$ 37,7 bilhões entre Vale, Governo de Minas e Ministério Público. No entanto, menos de 40% do montante foi efetivamente aplicado.

O consultor ambiental da Amig Brasil, Thiago Metzker, chama atenção para o paradoxo. “Estamos falando de mais de R$ 30 bilhões, dos quais apenas cerca de R$ 14 bilhões foram utilizados. Quando olhamos para o marco zero da tragédia, o avanço é de apenas 5%. O próprio rio Paraopeba ainda apresenta várias deficiências”.

Estudos da UFMG revelam que 70% dos domicílios em Brumadinho relataram algum tipo de adoecimento físico ou mental desde o rompimento. Estresse, insônia, ansiedade, hipertensão e depressão são recorrentes, e 52% dos adultos passaram por tratamento psicológico ou psiquiátrico.

Ao mesmo tempo, 76% das famílias enfrentam dificuldades de acesso a consultas e exames. A insegurança sanitária também persiste: 77% das famílias vivem com medo de contaminação dos alimentos – metais pesados como manganês, arsênio, chumbo, mercúrio e cádmio ainda estão presentes no ambiente, e 85% dos domicílios relatam impactos no uso da água.

Economia fragilizada e retomada da mineração

Segundo o professor Ricardo Machado Ruiz, Brumadinho pode perder entre R$ 7 bilhões e R$ 9 bilhões de PIB no longo prazo sem o acordo de reparação.

Com a aplicação parcial dos recursos, o prejuízo cai para algo entre R$ 4,2 bilhões e R$ 5,4 bilhões, mas não desaparece. “A mineração, antes central na economia local, foi substituída pela reparação, que absorveu mão de obra temporária, mas enfraqueceu pequenos negócios e a diversificação produtiva”.

Em 2025, seis anos após a tragédia, a Mina da Jangada, operada pela Itaminas, foi reaberta no entorno de Brumadinho. Moradores da comunidade local demonstram preocupação com o abastecimento de água e possíveis contaminações, vendo na retomada da exploração a continuidade de um modelo pouco alterado desde 2019.

Sem mudanças, tragédias continuarão

Para a Amig Brasil, não basta divulgar números ou anunciar investimentos. É preciso fortalecer a fiscalização, garantir transparência real, assegurar a correta aplicação dos recursos e promover mudanças legislativas.

“Sem controle, sem arrecadação justa e sem responsabilidade efetiva, continuaremos contando anos e acumulando tragédias”, enfatiza Marco Antônio Lage.

É assim que, sete anos depois, Brumadinho permanece como um alerta que parece esquecido pelas empresas mineradoras e governos.

“A memória das vítimas exige mais do que homenagens. Exige justiça, reparação integral e transformação estrutural de um setor que, enquanto não mudar e não tiver uma ANM estruturada e eficaz, seguirá colocando municípios, populações e o meio ambiente em risco”, conclui o presidente da Amig Brasil.

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