Escolher sem desculpas: por que a filosofia de Sartre incomoda tanto nos dias de hoje

Foto: Reprodução/
The National WWII Museum

Em um mundo que terceiriza decisões ao sistema, ao trauma ou às circunstâncias, o pensamento existencialista de Jean-Paul Sartre ressurge como um convite incômodo à responsabilidade individual

Pedro de Medeiros*

Vivemos em uma era marcada pela sensação constante de falta de escolha. Pressões econômicas, expectativas sociais, algoritmos, rotinas exaustivas e desigualdades estruturais parecem decidir por nós. Ainda assim, a filosofia de Jean-Paul Sartre (foto) insiste em uma ideia que segue desconfortável décadas depois: não há como fugir da escolha, nem das consequências dela.

A atualidade do pensamento sartreano está justamente naquilo que mais resistimos em aceitar. Escolher parece algo banal, quase automático, mas Sartre mostra que a escolha é o núcleo da existência humana. Mesmo quando acreditamos estar apenas reagindo ao mundo, ainda estamos decidindo como existir dentro dele.

Sartre não ignora os limites reais impostos pela vida, como classe social, história pessoal ou contexto político, mas recusa a ideia de que essas condições anulem a responsabilidade individual.

Para Sartre, o limite não é desculpa, é cenário. Não escolhemos as cartas que recebemos, mas escolhemos como jogá-las. Quando negamos isso, entramos no que ele chama de má-fé: fingir que somos apenas vítimas, quando ainda somos agentes.

A noção de “má-fé” ajuda a explicar por que tantas pessoas afirmam não ter escolha ao permanecer em situações que causam sofrimento, injustiça ou estagnação. Essa negação funciona como um mecanismo de alívio momentâneo, mas cobra um preço alto.

Quando dizemos ‘não tive escolha’, muitas vezes estamos apenas evitando assumir o custo da decisão tomada. O silêncio, a omissão e a permanência também são escolhas, embora socialmente aceitas como neutralidade.

A liberdade, em Sartre, está longe de ser romântica ou confortável. Pelo contrário: ela pesa, exige coerência e confronta o indivíduo com a própria autoria da vida que leva.

A liberdade sartreana não promete felicidade nem garantias. Ela oferece responsabilidade. Escolher é sempre renunciar, e viver é sustentar as consequências dessas renúncias.

Em tempos de discursos que buscam explicações externas para quase tudo, do fracasso pessoal às escolhas morais, revisitar Sartre é um exercício de honestidade radical.

A pergunta central não é ‘o que o mundo fez de mim?’, mas ‘o que estou fazendo com aquilo que o mundo fez de mim?’. Essa pergunta não conforta, mas desperta a consciência. E talvez seja exatamente disso que estamos fugindo.

Ao propor a ideia de escolher sem desculpas, Sartre não condena o ser humano à culpa permanente, mas o convoca a reconhecer sua condição: limitada, situada e, ainda assim, responsável. Uma provocação filosófica que segue urgente em um mundo acostumado a negociar com álibis.

Pedro de Medeiros é filósofo formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em Gestão de Pessoas. Consultor de multinacionais, palestrante e escritor, publicou quatro livros técnicos na área de engenharia e estreia na não ficção com “Escolhas: Uma Visão Realista” (Alta Books, 2026). Atua nas áreas de filosofia aplicada, liderança, ESG, ciência e tecnologia, conectando reflexão e prática de forma acessível e instigante.

 

 

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