E.M Foco apresenta Itabira como cidade com qualidade para se viver e visitar, mas recomenda-se um olhar crítico, não ufanista
Fotos: Acervo Vila de Utopia
Reportagem publicada pelo portal descreve a terra natal de Drummond como refúgio ideal para morar e visitar, mas ignora os impactos da mineração, a crise hídrica, o custo de vida elevado e as rodovias precárias que marcam o cotidiano dos que vivem na cidade
Carlos Cruz
O portal do Estado de Minas (E.M Foco) publicou no sábado (10) reportagem sob o título “A cidade mineira cercada por montanhas que virou refúgio de quem busca calma e qualidade de vida”, assinada por Vitor Bruno, referindo-se a Itabira.
Com subtítulo ainda mais ufanista, “Por que Itabira é considerada um dos melhores refúgios para viver no Brasil?”, a “reportagem” tem toda a aparência de ser matéria paga, com todas as fotos retiradas da Wikipedia.
O prefeito Marco Antônio Lage (PSB) assegura que, se for matéria paga, não foi a Prefeitura quem financiou. “Matéria espontânea, creio”, afirmou, garantindo que nela “temos valores reais que são verdadeiros”, sem, contudo, apontar quais seriam esses valores.
O “ponto de ouro” e a dívida histórica
Uma pista sobre o possível patrocinador aparece no trecho antecedido pela pergunta: “Qual é o segredo ou recorde que faz Itabira ser única no mundo?”, para em seguida o redator responder, ufanisticamente: “O ‘Ponto de Ouro’ desta terra é o fato de ser o berço da Vale S.A., uma das maiores mineradoras globais, fundada originalmente como Companhia Vale do Rio Doce.”
“A extração iniciada no pico do Cauê transformou a geologia local e impulsionou a economia brasileira em escala internacional”, afirma a reportagem.
O repórter não deve ter visitado a cidade do poeta Carlos Drummond de Andrade, que tanto criticou a mineração por impactar negativamente a paisagem, descaracterizando paisagísticamente a Serra do Esmeril, Cauê e a Conceição.
De 1942, data de sua fundação, até 1969, quando só então foi instituído o Imposto Único sobre Minerais (IUM), que destinava apenas 20% ao município, a mineradora levou mais de um bilhão de toneladas de hematita para o mundo sem pagar impostos.
O minério de Itabira foi imprescindível ao esforço de guerra contra o nazifascismo e possibilitou a reconstrução da Europa no pós-guerra, sem contrapartida para Itabira.
Até a hematita que compunha as calçadas centenárias do centro histórico foi entregue à mineradora em pagamento de dívidas da Prefeitura. Trata-se de uma inversão que perpetua a dívida histórica impagável da empresa extrativista para com o município.
Poeira, doenças respiratórias e crise hídrica

Como falar em qualidade de vida em uma cidade que convive diariamente com o pó preto das minas, agravando doenças respiratórias e invadindo casas, escolas, comércio?
Como falar em qualidade de vida em uma cidade que perdeu nascentes como Borrachudo, Camarinha e Três Fontes, com a população vivendo há mais de oito décadas em crise hídrica?
A promessa de que os aquíferos das Minas do Meio seriam legados que ficariam, com a exaustão, para abastecimento de água de classe especial à cidade nunca se cumpriu. As cavas exauridas hoje servem para a mineradora dispor rejeitos, proibidos que foram de seguirem para as barragens.
Foi daí, com base no que dispõe o Código das Águas, que prioriza o consumo humano para só depois servir a indústria, numa inversão que até então tem prevalecido, e também por não cumprir a promessa do “legado”, que o Ministério Público obrigou a Vale a custear, por meio de um TAC firmado em agosto de 2020, o que só deve ser concluído em 2027, com mais de 25 anos de atraso.
Até lá, os moradores continuarão convivendo com torneiras secas neste ano – e também, possivelmente ainda em 2027. Como falar em qualidade de vida, quando falta água na cidade?
Estudos desenvolvidos pela equipe do professor Paulo Saldiva, da USP, e também da Unifei, já apontaram que Itabira apresenta maiores taxas de doenças respiratórias, agravadas pelo pó preto de minério de ferro e sílica.
Isso eleva os custos públicos com internações hospitalares, enquanto a população sofre com o agravo dessas doenças respiratórias.
Estradas precárias e acesso difícil
Mesmo quem deseja visitar Itabira enfrenta obstáculos. As BRs-381/262 são conhecidas pela precariedade e alto índice de acidentes, tanto que ainda são conhecidas como as “rodovias da morte”.
Já a rodovia estadual que liga o trevo à cidade é esburacada, consequência do fluxo incessante de caminhões a serviço da mineradora.
O trajeto é perigoso e desgastante, contradizendo o discurso de tranquilidade da “reportagem” e revelando a logística precária que há anos impacta as pessoas que por ela trafegam – e tornam a vinda a Itabira uma temeridade.
Educação
“No campo acadêmico, a cidade abriga um campus da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), instituição de referência focada em engenharias e tecnologia.O polo universitário atrai estudantes de diversas regiões, fomentando a inovação e o pensamento científico dentro da comunidade mineira”, continua a “reportagem” do E.M Foco.
Ora, aí também o repórter falha pela falta de checagem. Como reconhece o próprio prefeito Marco Antônio, a Unifei, mesmo após 18 anos de instalação, não cumpriu o prometido: contribuir para diversificar a economia com um Parque de Desenvolvimento Tecnológico, jamais implantado.
O campus local dispõe de pouco mais de 2 mil estudantes e só forma engenheiros. Está longe de ser um campus universitário pleno. Itabira há décadas não forma mais professores em Ciências Exatas, Humanas, Biológicas ou Saúde.
No passado, UFOP e UEMG manifestaram interesse em se instalar na cidade. Mas a Vale e os prefeitos da época preferiram a Unifei e a Funcesi, faculdade que abandonou os cursos de licenciatura, por falta de alunos e por não serem lucrativos. Assim, a terra de Drummond perdeu sua Faculdade de Letras, que existia desde 1968.
Cultura e turismo rural
Se a “reportagem” tivesse se preocupado em checar, de fato e não de ficção, a realidade cultural da cidade, teria lembrado que Itabira é de fato atrativa em momentos específicos.
O Festival de Inverno, em junho, movimenta a cidade com música, teatro e artes visuais. Em outubro, o Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) e a Semana Drummondiana celebram o nascimento do poeta em 31 de outubro de 1902, atraindo visitantes e estudiosos.
O pré-carnaval da cidade é também outro atrativo cultural e turístico que vem crescendo ano a ano, mas isso não foi sequer citado na “reportagem” ufanista do portal do Estado de Minas.
Além disso, nos distritos de Ipoema e Senhora do Carmo, ainda é possível encontrar águas cristalinas e cachoeiras que encantam turistas.
Poderia também citar os festivais de viola que ocorrem em Ipoema, a festa da padroeira de Senhora do Carmo, que atrai romeiros da região e movimenta o distrito.
Esses são os verdadeiros atrativos, que convivem com as mazelas da mineração. Mas nada disso constou da “reportagem” ufanista.
Paisagismo dilacerado

“O visual panorâmico da serra se une ao silêncio do museu projetado por Oscar Niemeyer”, insiste a “reportagem” ufanisticamente, seguindo com o intertítulo “Pico do Amor: O aroma da vegetação nativa e o vento fresco no topo da montanha oferecem uma visão privilegiada de todo o vale minerador.”
Definitivamente, o repórter não veio a Itabira. Confirma assim que redigiu a matéria sem aportar na cidade que tanto exalta, possivelmente com auxílio da Wikipedia, de onde também extraiu as fotos.
E mais: no subtítulo “Fazenda do Pontal”, afirma que “o som das águas e a arquitetura preservada narram a infância do poeta entre jardins e muros de pedra”.
Que som das águas, caro repórter, se as fontes do Pará, assim como as Três Fontes, Borrachudo, Camarinha e tantas outras não existem mais?
Não existe mais também a fazenda do Pontal, desmontada na década de 1970, para muitos anos depois virar uma réplica, tendo toda a sua extensão soterrada por rejeitos da mineração.
O clima é descrito como “tropical de altitude, visto que a sede municipal repousa a cerca de 800 metros acima do nível do mar”.
Mas esse era o clima ameno que de fato existia na cidade, só que muito antes da mineração em larga escala, que suprimiu a vegetação das serras em sua encosta.
E assim foi que a mineração antecipou mudanças climáticas na cidade muito antes da preocupação ganhar escala mundial.

Economia cara e desigual
Itabira tem um dos maiores custos de vida de Minas. A gasolina custa até R$ 1 a mais que em Belo Horizonte, aponta pesquisa da UFMG em parceria com a Amig. O custo de vida é elevadíssimo, a ponto de muitos moradores preferirem fazer compras em João Monlevade.
A pesquisa da UFMG e da Amig mostra que cidades mineradas têm preços mais altos em todos os segmentos, assim como acentua a desigualdade social e infraestrutura sobrecarregada.
A intensa circulação de veículos a serviço da mineração contribui para o aumento dos preços dos combustíveis e agrava a deterioração das vias de acesso, nas rodovias e também na cidade, que ficam sem manutenção adequada.
Há, ainda, além da desigualdade social, com concentração de renda entre trabalhadores da mineração e aqueles que estão à margem da atividade, a sobrecarga da infraestrutura urbana, o inchaço com o crescimento desordenado da cidade sem contrapartidas.
A precariedade das vias de acesso, elevando custos de manutenção de veículos particulares, é também facilmente perceptível, o que o repórter certamente anotaria se visitasse a cidade.
Trechos como a Estrada 105, utilizada majoritariamente por veículos a serviço da Vale, e a via entre o bairro Campestre e a mina Cauê apresentam desgastes significativos. A empresa deveria ser obrigada a recapear periodicamente esse trecho, mas isso ela não faz. E nem é cobrada.
A negligência da Vale é evidente até na gestão de suas interfaces urbanas: entre a ferrovia e a cidade, prolifera o mato alto onde deveria existir uma cortina verde, com espécies árboreas nativas para mitigar a emissão de poeira, seguindo sem cumprir condicionantes da LOC 2000.
Olhos críticos
Que o turista venha, sim, conhecer a cidade natal de Carlos Drummond de Andrade. Que percorra os Caminhos Drummondianos, que andam abandonados e com mato e entulhos ao redor. E que precisam ser atualizados com trechos críticos do poeta sobre a mineração.
Que percorra também os demais caminhos da poesia no centro histórico, que começa e tem promessa de ser reocupado comercialmente, podendo receber também estudantes da Unifei em futuras moradias. Mas precisa ser urgentemente revitalizado para servir como fortes atrativos turísticos.
Que o turista venha participar do Festival de Inverno, do Flitabira, da Semana Drummondiana, das rodas de viola em Ipoema. Que se encante com as belezas naturais ainda preservadas, que banhe nas águas cristalinas de sua extensa zona rural.
Mas que venha também com olhos críticos. Que veja de perto as mazelas da mineração e seus impactos acumulados ao longo de mais de oito décadas.
Impactos esses que tornaram o município dependente de uma única atividade econômica, sem alternativas viáveis, até mesmo pela escassez de recursos hídricos até então, monopolizados pela atividade em sua quase totalidade.
Que perceba como a poeira das minas invade casas, comércio, escolas, as vias respiratórias, assim como sinta o sacolejar dos veículos ao trafegar pelas estradas deterioradas sob o peso dos caminhões a serviço da mineração.
Que sinta a crise hídrica ainda se arrastando sem solução definitiva, e como o custo de vida se mantém elevado em comparação a cidades vizinhas.
É preciso que tudo isso seja mostrado ao Brasil e ao mundo.
Só assim se compreenderá que, por trás da propaganda ufanista e das meias verdades, existe uma cidade que resiste, que luta para preservar sua memória cultural e suas belezas naturais, mas que continua sufocada pela mineração e pelos seus impactos negativos.
É urgente encontrar caminhos viáveis para o futuro, antes que venha a “derrota incomparável”, quando a principal fonte de impostos e royalties se exaurir em um horizonte temporal curto, pouco mais de uma década e meia, com a redução gradativa da atividade mineradora.
Que Itabira se prepare de fato para o turismo como alternativa de renda, inserido em um novo rearranjo econômico capaz de assegurar sustentabilidade para as gerações atuais e futuras.
Serviço
Leia a “reportagem” do E.M Foco aqui:
A cidade mineira cercada por montanhas que virou refúgio de quem busca calma e qualidade de vida







