É o petróleo, estúpido: o que a narrativa oficial omite sobre a invasão à Venezuela

 

Complexo de refino de petróleo de Amuay, na Venezuela, símbolo da infraestrutura estratégica que está no centro da disputa geopolítica após a ofensiva militar dos Estados Unidos

Foto: Génesis García,
via Wikimedia Commons,
sob licença CC BY-SA 3.0

A ofensiva sem mandato da ONU expõe a fragilidade da ordem internacional, amplia a crise humanitária e recoloca o petróleo no centro da disputa geopolítica

Valdecir Diniz Oliveira*

As explosões na Venezuela começaram pouco antes das 2h locais e seguiram até cerca de 3h15; vídeos mostraram mísseis cruzando o céu e helicópteros sobrevoando Caracas, com impactos em áreas urbanas e instalações militares.

Os estados de Miranda, Aragua e La Guaira foram atingidos, e houve relatos de incêndio e danos em Fuerte Tiuna, além de cortes de energia próximos à Base Aérea de La Carlota.

O governo venezuelano divulgou um balanço inicial de ao menos 40 mortos, incluindo civis e militares, mas sem discriminação nominal e por local, uma lacuna que impede avaliar proporcionalidade e proteção de civis com rigor técnico.

A captura de Maduro e a firmeza institucional
Maduro detido e levado aos Estados Unidos Foto: Reprodução/@realDonaldTrump/Truth Social)

Donald Trump confirmou a captura e remoção aérea de Maduro e de Cilia Flores para os Estados Unidos e afirmou que “governaria a Venezuela até uma transição segura”. Para quem, já se sabe.

A vice-presidente Delcy Rodríguez exigiu prova de vida e denunciou a violação da soberania, resistindo a pressões para se tornar instrumento da tutela externa.

A Venezuela formalizou pedido de reunião emergencial do Conselho de Segurança por carta assinada pelo chanceler Yván Gil Pinto e enviada ao presidente do Conselho, Abukar Dahir Osman, descrevendo ataques “brutais, injustificados e unilaterais” em áreas civis e militares — o que reforça a dimensão política e jurídica da ofensiva e coloca a legalidade da operação sob escrutínio multilateral.

Impactos humanitários

A crise crônica de escassez de alimentos, medicamentos e serviços básicos foi agravada por bombardeios em zonas urbanas e pela interrupção logística.

Famílias desalojadas, idosos com tratamentos suspensos e crianças em travessias de fronteira compõem um quadro que exige acesso humanitário e auditoria independente de danos para orientar resposta efetiva.

A ONU manifestou preocupação e alertou para “precedente perigoso”, sinalizando que os impasses políticos no Conselho podem retardar medidas de proteção a civis em campo.

A Human Rights Watch, que já documentava repressão sistemática no país, aponta que o contexto atual amplia o risco direto para populações não combatentes.

O petróleo no centro da disputa

A Venezuela abriga as maiores reservas comprovadas de petróleo e infraestrutura ainda crítica, como as refinarias de Amuay e Cardón (Complexo Paraguaná) e El Palito.

Em cenário de incerteza energética global, controlar reservas, terminais e rotas marítimas se converte em poder de barganha sobre preços e contratos.

A captura de Maduro e o anúncio de “governar” a Venezuela recosturam o tabuleiro político para redesenhar concessões e suprimento.

Analistas independentes observaram que a decisão de permanecer e “tomar o controle” da indústria não estava entre os cenários mais prováveis, o que reforça que a prioridade material da operação foi energética, e não um combate coerente ao narcotráfico –  setor no qual a Venezuela opera majoritariamente como rota de trânsito, não como produtora.

Reação internacional e mercados

Colômbia classificou a operação como ilegal e mobilizou medidas na fronteira; o Brasil convocou reuniões emergenciais e alertou, via Ministério dos Direitos Humanos, para impactos humanitários e a necessidade de observância da Carta Internacional de Direitos Humanos.

México pediu respeito à soberania, enquanto Javier Milei apoiou a ofensiva; Espanha cobrou respeito ao direito internacional.

Rússia e China condenaram o ataque, denunciando violação da ordem internacional e sinalizando disputa de influência por vias diplomáticas e comerciais.

Em paralelo, mercados reagiram: prêmios de seguro subiram para rotas venezuelanas, cargas foram redirecionadas e blends de refino foram ajustados, elevando volatilidade e alongando prazos contratuais.

A Folha de S.Paulo registrou a ruptura do “tabu” de quase 40 anos sem intervenções diretas dos EUA na América Latina, o que amplia a percepção de mudança doutrinária com efeitos regionais imediatos.

Precedentes perigosos e risco de escalada global

Sem autorização multilateral, a operação colide com os artigos centrais da Carta da ONU (soberania, integridade territorial e não intervenção).

A captura transnacional de um chefe de Estado aumenta a gravidade do ato e normaliza o fato consumado como instrumento de rearranjo político e controle de ativos estratégicos.

Ao precarizar o processo decisório no Conselho de Segurança e avançar por fora da moldura multilateral, abre-se um precedente que encoraja replicações de força em disputas contemporâneas.

Nesse ponto, analistas independentes como NACLA e The Intercept destacam que o risco não é apenas regional: a ofensiva pode estimular uma nova era de confrontos indiretos entre potências.

Rússia e China, embora condenem duramente a ação, tendem a evitar confronto militar direto, preferindo ampliar influência por meios diplomáticos e comerciais.

O cenário mais provável é de intensificação da guerra híbrida, por meio de sanções, disputas energéticas e diplomáticas, em vez de uma Terceira Guerra Mundial aberta.

Ainda assim, o precedente é perigoso: legitima intervenções unilaterais e fragiliza a arquitetura legal que deveria conter a força.

O bombardeio à Venezuela não é sobre drogas, nem liberdade. É sobre petróleo, poder e hegemonia

É assim que a retórica norte-americana procura mascarar a apropriação de ativos estratégicos sob o discurso de uma cruzada moral, em nome do combate às drogas e defesa das liberdades democráticas.

A sequência dos fatos, com os ataques coordenados, a captura de um chefe de Estado, a reação imediata da comunidade internacional e o alerta da ONU sobre o precedente perigoso, expõe com clareza uma intervenção que substitui soberania por controle material de recursos.

Sem auditoria independente das vítimas e das áreas atingidas, sem corredores humanitários e sem qualquer compromisso com reconstrução, o saldo humano e econômico acumula-se de forma invisível, ampliando a tragédia enquanto permanece fora do escrutínio público

E, junto com ele, avança a corrosão das normas que deveriam limitar o uso da força, fragilizando a ordem internacional e normalizando a violência como instrumento de política externa.

Foto: acervo pessoal

*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.

 

 

 

 

Fontes consultadas

  • G1, O Tempo, O Povo, Folha de S.Paulo, Estado de Minas, Correio Braziliense
  • Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (Brasil)
  • ONU (comunicados e pedido formal ao Conselho de Segurança)
  • Human Rights Watch, ACNUR (contexto humanitário e deslocamentos)
  • NACLA, The Intercept, Al Jazeera, Declassified UK (análises independentes sobre precedentes e risco de escalada global)

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