É o petróleo, estúpido: Estados Unidos bombardeiam a Venezuela e capturam Maduro
Foto: PDVSA/ Reprodução
Washington justifica sua ofensiva como combate ao narcotráfico, mas o alvo real são as maiores reservas de petróleo do planeta
Valdecir Diniz Oliveira*
Na madrugada deste sábado (3), os Estados Unidos lançaram uma ofensiva militar contra a Venezuela e capturaram Nicolás Maduro.
As primeiras explosões foram registradas em Caracas e em cidades estratégicas próximas ao litoral. Instalações militares e áreas urbanas foram atingidas. Em poucas horas o presidente venezuelano foi capturado junto com a primeira-dama, Cilia Flores.
Donald Trump confirmou publicamente a operação, enquadrando-a como parte de uma campanha internacional contra o narcotráfico. O discurso oficial fala em “desmantelar redes criminosas” e “proteger a região da ameaça das drogas”.
Mas a narrativa não resiste à checagem: a Venezuela não é produtora relevante de entorpecentes. Não figura entre os líderes mundiais na produção de cocaína, como a Colômbia, nem tem o histórico da Bolívia com a folha de coca. Tampouco se destaca na produção de maconha.
O país aparece sobretudo como rota de trânsito da cocaína colombiana, aproveitada por cartéis que se beneficiam de fronteiras porosas e da fragilidade institucional.
Portanto, a operação militar dos Estados Unidos parte de uma premissa distorcida: não há produção significativa de drogas na Venezuela que justifique uma intervenção dessa magnitude.
Maiores reservas comprovadas
O que está em disputa é o controle das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e da infraestrutura que, mesmo degradada, continua estratégica. A Venezuela possui cerca de 300 bilhões de barris de petróleo comprovados, superando Arábia Saudita e Canadá.
Refinarias como Amuay e Cardón, no Complexo Paraguaná, e El Palito representam ativos valiosos. Mesmo operando abaixo da capacidade, continuam sendo pontos-chave para exportação e refino.
Em ciclos de incerteza energética, reduzir risco e ampliar acesso a reservas e rotas marítimas é prioridade para potências importadoras e dependentes do petróleo, como são os Estados Unidos.
Portanto, está claro que uma intervenção que se combina com a captura do chefe de governo abre margem para redesenhar contratos, pressionar operadores e reorientar cadeias de suprimento.
O discurso antidrogas serve como cortina de fumaça. Com o ataque à Venezuela, Washington repete a lógica já vista no Oriente Médio: invadir, ocupar e controlar recursos estratégicos sob justificativas morais ou de segurança.
Impactos internos e custo humano
Bombardeios em áreas urbanas e industriais provocam ruptura imediata em serviços essenciais: energia, água, saúde, transporte e abastecimento.
Instalações próximas a refinarias e dutos elevam risco ambiental e de acidentes tecnológicos. Mesmo sem colapso total, interrupções em produção e distribuição pioram preços, filas e escassez.
Para a população local, isso se traduz em deslocamentos forçados, perda de renda e sobrecarga nos sistemas de saúde e assistência. Escolas e unidades básicas sofrem com danos físicos e falta de insumos.
A crise humanitária na Venezuela, já marcada pela escassez de alimentos, medicamentos e serviços básicos, ganha assim novas dimensões com os bombardeios. A insegurança se intensifica, rotas de abastecimento são interrompidas e a retração dos serviços públicos se aprofunda.
O cotidiano, antes já fragilizado pela crise econômica, agora vai se deteriorar ainda mais sob o impacto direto dessa invasão imperialista. Famílias perdem suas casas em áreas atingidas, crianças atravessam fronteiras em busca de refúgio e idosos veem tratamentos médicos suspensos.
Legalidade e proporcionalidade
Operações militares em território de outro Estado exigem demonstração de ameaça real, necessidade e proporcionalidade.
Sem autorização multilateral ou convite do Estado alvo, o ônus de prova recai sobre quem intervém: quais alvos, quais critérios, como se protege civis e infraestrutura crítica, que mecanismos independentes verificam o cumprimento de regras de engajamento.
A transparência sobre cadeia de comando, seleção de alvos e apuração de danos é central para diferenciar “ação de segurança” de “violação de soberania”. Declarações genéricas não substituem verificações, auditorias e acesso humanitário, que precisam ocorrer desde já.
Reação internacional
Logo após os bombardeios, o governo da Venezuela solicitou formalmente uma reunião emergencial do Conselho de Segurança da ONU, em carta assinada pelo chanceler Yván Gil Pinto e enviada ao presidente do Conselho, Abukar Dahir Osman.
Caracas denunciou “atos de agressão” e pediu condenação imediata da ofensiva. A reunião foi confirmada e já enfrenta impasses políticos, com vetos esperados entre membros permanentes.
Na região, Colômbia e Cuba condenaram os ataques. O presidente colombiano Gustavo Petro classificou a ação como ilegal e mobilizou forças na fronteira para lidar com um possível fluxo de refugiados. Petro também pediu reunião urgente da OEA e da ONU. O presidente cubano Miguel Díaz-Canel chamou o ataque de “criminoso”.
Brasil convocou reunião de emergência no Planalto e no Itamaraty para avaliar a ofensiva e coletar dados antes de se posicionar oficialmente. O governo brasileiro manifestou preocupação com a escalada e com impactos migratórios.
O presidente Lula (PT) classificou os ataques dos Estados Unidos à Venezuela como sendo inaceitável. Segundo ele, “atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência”.
“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, afirmou em publicação na rede oficial da presidência da República.
México e Argentina também reagiram: o governo mexicano pediu respeito à soberania e cessar-fogo, enquanto o presidente argentino Javier Milei apoiou publicamente a ação americana, dizendo que representa “um avanço da liberdade”.
Na Europa, Espanha ofereceu mediação diplomática e pediu respeito ao direito internacional.
Entre as potências extra-regionais, Rússia condenou o ataque como “profundamente inquietante e condenável”, afirmando que se trata de “hostilidade ideológica” e não de diplomacia. China também se posicionou contra a ofensiva, pedindo moderação e respeito à soberania venezuelana. O Irã classificou a ação como “violação flagrante da soberania nacional”.
Nos mercados, seguradoras elevaram prêmios para rotas e portos venezuelanos, e armadores redirecionaram cargas. Dados da Reuters mostram que petroleiros deram meia-volta e milhões de barris ficaram retidos em portos venezuelanos, com clientes exigindo descontos maiores e alterações contratuais.
A estatal PDVSA, já pressionada por sanções, recorreu a navios-tanque para estocar petróleo. O resultado imediato foi volatilidade nos preços e prazos maiores para contratos de energia e transporte.
ONGs e organismos de direitos humanos começaram a documentar os danos civis e ambientais. Relatórios preliminares apontam que áreas urbanas foram atingidas, com denúncias de vítimas civis feitas pelo governo venezuelano.
Entidades internacionais pressionam por mecanismos de proteção, transparência na escolha de alvos e responsabilização por ataques a infraestrutura crítica.
Soberania e direito internacional
Que fique claro: o bombardeio à Venezuela não é sobre drogas. É sobre petróleo, poder e hegemonia. A narrativa oficial tenta mascarar o óbvio, mas a realidade se impõe: o petróleo está no centro da disputa, e são as vidas venezuelanas que pagam a conta.
A operação rotulada como “guerra às drogas” desloca o foco daquilo que realmente move decisões estratégicas: o controle das maiores reservas de petróleo do planeta, a capacidade de influenciar preços internacionais e o poder de barganha sobre cadeias de energia globais.
Portanto, o ataque não apenas redefine contratos e rotas de abastecimento, mas também reposiciona Washington como árbitro de fluxos energéticos em um momento de instabilidade mundial.
Enquanto isso, o custo humano se acumula. Sem mecanismos verificáveis de proteção a civis, sem compromisso com reconstrução e sem garantias de acesso humanitário, a população venezuelana enfrenta uma crise que se transforma em emergência aguda.
Cada bomba lançada sobre Caracas e sobre cidades estratégicas não atinge apenas alvos militares: destrói casas, interrompe tratamentos médicos, força deslocamentos e aprofunda a escassez de alimentos e medicamentos.
O que está em jogo não é apenas a geopolítica do petróleo, mas a própria noção de soberania e de direito internacional.
Além disso, a ofensiva norte-americana expõe a fragilidade das instituições multilaterais, incapazes de conter a escalada imperialista norte-americana. E coloca em xeque a credibilidade de discursos que se apresentam como defesa da segurança global.
No fim, a equação é brutal: petróleo de um lado, vidas do outro. E enquanto Washington insiste em chamar a operação de “guerra às drogas”, o mundo assiste à repetição de um padrão já visto no Oriente Médio, onde justificativas morais encobrem a disputa por recursos estratégicos.
A Venezuela, agora, é o novo palco dessa lógica.
*Valdecir Diniz Oliveira é cientista político, jornalista e historiador.
**Com informações da grande imprensa e mídia alternativa.








Vá pesquisar antes de escrever tanta bobagem! O petróleo da Venezuela NÃO É DOS MAIORES e é de baixo nível. Quanta bobagem.