Itabira ganha fábrica de produção de supressor sustentável para conter poeira da mineração
Fotos: Carlos Cruz
Unidade produz resina biodegradável a partir de plástico reciclado, gera renda para catadores e marca avanço no projeto Itabira Sustentável, mas também expõe desafios históricos da mineração e da gestão de resíduos
A crise do plástico é hoje um dos maiores desafios ambientais do planeta. A produção mundial cresce sem controle e o descarte inadequado, que pode dobrar até 2050, já espalhou micro e nanoplásticos do fundo dos oceanos ao topo das montanhas.
Essas partículas estão associadas a doenças cardiovasculares, câncer, infertilidade e impactos ainda desconhecidos sobre ecossistemas inteiros.

Neste contexto, a inauguração da fábrica dedicada à produção de um supressor sustentável de poeira feito a partir de garrafas PET recicladas, em Itabira, nessa segunda-feira (15), representa um avanço ambiental e social relevante.
A unidade, construída pela Vale em parceria com a startup Biosolvit, transforma resíduos plásticos de baixa reciclabilidade em uma resina biodegradável aplicada para reduzir a poeira gerada pela mineração.
Trata-se de um impacto ambiental recorrente na cidade, principalmente na estiagem, e que pode ser mitigado de forma satisfatória com a aplicação desse polímero, como já está acontecendo nas minas de Itabira e também em Tubarão, no Espírito Santo.
Com 960 metros quadrados, a planta terá capacidade para produzir um milhão de litros de resina por mês, reaproveitando 24 toneladas de PET que antes iriam para aterros sanitários.
Como funciona a tecnologia que transforma lixo em solução ambiental

O processo, explicado em detalhes pelo CEO da Biosolvit, Guilhermo Queiroz, combina reciclagem química e inovação patenteada.
“Quebramos a cadeia do polímero e transformamos o PET em uma resina biodegradável e não tóxica. Essa resina cria uma película protetora sobre o minério, reduzindo a emissão de poeira e melhorando a qualidade do ar”.
Outra boa notícia é que, diferentemente da reciclagem mecânica tradicional, que exige PET cristal e limpo, a tecnologia da Biosolvit permite utilizar PET colorido, PET bandeja e outros materiais de baixa reciclabilidade, que antes não geravam renda para os catadores.
Com a nova unidade, Itabira se junta à fábrica de Cariacica, no Espírito Santo, inaugurada em 2023. Juntas, as duas plantas poderão retirar mais de 70 milhões de garrafas PET por ano do meio ambiente.
Combate à poeira, um impacto ambiental histórico

A poeira do minério, proveniente das minas da Vale, constituída de partículas grossas e também finas, é um dos maiores impactos da mineração em Itabira desde o início das operações em 1942, fato que se agravou a partir dos anos 1980, com a supressão da mata nativa da Serra do Esmeril.
Desde então, moradores convivem com essa poluição pelo pó preto de minério de ferro, que afeta a saúde e a qualidade de vida da população, especialmente no período seco.
“Estamos transformando desafios ambientais em oportunidades para melhorar a qualidade de vida das pessoas e garantir um futuro mais seguro e saudável”, afirmou o diretor de Operações da Vale em Itabira, Diogo Monteiro, na solenidade de inauguração.
“A inauguração desta unidade reforça nosso compromisso com o Itabira Sustentável, trazendo uma nova atividade econômica e ampliando a renda de centenas de famílias”, salientou.
Economia circular e o papel dos catadores

Se o impacto ambiental do novo empreendimento é relevante, o social é também bastante significativo.
A fábrica será abastecida por 560 catadores de 12 associações da região, incluindo a Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Itabira (Ascarmarita), que acaba de ganhar um novo galpão construído com apoio da Vale.
Para os catadores, o reaproveitamento e a compra do PET colorido, antes sem valor, agora se tornam fonte de renda, com logística próxima, reduzindo custos com transporte e aumentando a margem de lucro. “Para nós, o PET colorido tem o mesmo valor que o PET cristal. Isso aumenta a renda dos catadores em até 40%”, assegurou Guilhermo Queiroz.
A diretora de Sustentabilidade da Vale, Camila Lott, reforçou o caráter social e ambiental do projeto, que mitiga a poeira das minas e também ao longo da estrada de ferro, com aspersão sobre os vagões carregados de minério de ferro.
“Mineração é uma atividade de alto impacto. Os negativos a gente controla e os positivos a gente potencializa. Este é um típico projeto ganha-ganha”, disse ela, destacando também o papel do programa Reciclo Agora, que apoia associações de catadores em Minas Gerais e fortalece a gestão e a infraestrutura das cooperativas.
A ciência por trás da inovação

A professora Miriam de Magdala, superintendente de Inovação da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), apresentou a trajetória científica que permitiu a criação do supressor. Segundo ela, a pesquisa começou em 2013, seguida do depósito da patente em 2014 e da concessão em 2018.
Nos anos seguintes, a tecnologia passou por sucessivos aprimoramentos até atingir maturidade industrial. “A concessão da patente não é o fim. É o começo. Este é um caso raro em que a inovação saiu do laboratório, ganhou escala industrial e gerou impacto social e ambiental real”, salientou a pesquisadora.
“A UFES agora trabalha para ampliar parcerias e desenvolver novas tecnologias de reciclagem e economia circular”, disse ela, adiantando que vem mais novidades por aí nesse segmento.
“Fábrica é investimento para a transição econômica”, diz prefeito

O prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage (PSB), situou a instalação da nova fábrica como parte de um projeto mais amplo de transformação econômica e ambiental do município.
Para ele, o empreendimento não é um fato isolado, mas um passo significativo dentro de uma estratégia de futuro. “É a primeira vez na história de Itabira que temos uma unidade de beneficiamento de resíduos. Isso é importante para a transição econômica que buscamos”, afirmou.
Lage ressaltou que a fábrica se integra diretamente ao plano Itabira Sustentável, que reúne mais de 60 projetos estruturantes. Entre eles, prevê a implantação de uma Central de Reprocessamento de Resíduos no terceiro distrito industrial, anunciado para se instalar na antiga Fazenda Palestina.
Ele destacou que esse eixo é fundamental para diversificar a economia e preparar a cidade para o período pós-mineração. “Queremos construir um novo ciclo econômico, menos dependente da mineração e mais conectado às tecnologias limpas e à economia circular”, disse.
O prefeito também lembrou que a retomada da Unifei, com novos cursos e a perspectiva de dobrar o número de alunos, além da instalação do curso de Medicina da Funcesi, já patrocinado pela Vale, são iniciativas que se somam à nova fábrica para criar condições de transformação. “Estamos construindo um polo médico e tecnológico em Itabira. Isso é parte da transição que precisamos”, afirmou.
Ao comentar o impacto direto da fábrica na gestão de resíduos, Marco Antônio Lage também reforçou que o plástico é um dos maiores problemas ambientais do planeta. “Com essa unidade, vamos reduzir progressivamente o envio de plástico ao aterro sanitário, evitando que esse material polua cursos d’água e cause transtornos no período chuvoso”, observou.
De fato, sem uma gestão correta, esse resíduo contribui para enchentes e transbordamentos decorrentes de assoreamento de cursos d’água, entupimentos de canaletas e bocas de lobo.
O prefeito destacou também que o reaproveitamento desse material plástico reduz sua disposição no aterro sanitário. “O aterro é uma solução em desuso no mundo. Precisamos avançar para o reaproveitamento total dos resíduos. Em Barcelona já se opera com aterro zero, e esse é o caminho que queremos seguir”, afirmou

Ponto de atenção
O aterro sanitário do Borrachudo, que sucedeu o antigo lixão e foi instalado em 2012, tinha previsão de vida útil de 20 anos.
Esse prazo já se aproxima do limite, sobretudo diante das dificuldades enfrentadas pela coleta seletiva de resíduos urbanos em Itabira nos últimos dez anos.
Reconhecida nacionalmente nos anos 1990 pelos altos índices de reciclagem, a cidade passou a enfrentar sucessivas crises na gestão de resíduos, marcadas pela recorrente mistura de recicláveis e orgânicos.
Esse problema decorre tanto da falta de segregação adequada por parte dos moradores quanto de falhas operacionais na coleta, agravadas pela suspensão de contratos com empresas terceirizadas e pelo enfraquecimento da Itaurb, que sofre com sucessivas terceirizações de serviços.
Se a mistura de recicláveis e orgânicos persistir, a vida útil do aterro municipal pode ser comprometida, mesmo com o manejo correto, que inclui a cobertura diária com terra para reduzir gases e vetores.
Portanto, retomar com força a coleta seletiva é uma tarefa urgente que e deve ser incorporada como objetivo estratégico do plano Itabira Sustentável.
Só assim o município pode reassumir o papel de vanguarda que já exerceu no início da década de 1990, quando implantou a coleta seletiva no governo do ex-prefeito Luiz Menezes (1989–1992).

Avanço importante para a economia circular
A inauguração da fábrica de supressor sustentável de poeira em Itaira, produzido a partir de garrafas PET recicladas, representa um passo importante em direção a uma economia circular, algo raro em municípios minerados, onde a lógica extrativista costuma prevalecer.
Mas é importante lembrar que o supressor reduz poeira em áreas descobertas, mas não elimina o impacto da mineração, que precisa avançar no replantio de espécies sucessoras nas áreas mineradas, inclusive na reabilitação paisagística da Serra do Esmeril, como já vem ocorrendo em alguns trechos.
A nova fábrica instalada em Itabira tem méritos inegáveis ao unir ciência, indústria e poder público, fortalecendo cooperativas, reduzindo resíduos urbanos e melhorando a qualidade do ar. É um começo e, como disse o prefeito, “só começando é que a gente termina”.
A fábrica de supressor sustentável de Itabira não é apenas uma unidade industrial, mas um exemplo real de que a cidade e a própria Vale podem trilhar caminhos mais responsáveis, mais limpos e sustentáveis.
Mas também é um lembrete de que a transição econômica e ambiental exige continuidade. Para isso, precisa diversificar com empreendimentos que não sejam ligados à mineração, embora essa continue sendo fonte de renda e serviços mesmo após a exaustão das minas locais, uma vez que a atividade prossegue por muito mais tempo no Quadrilátero Ferrífero.








