Primo do poeta de Itabira enfrenta o avanço da confecção

Agnelo Drummond, o alfaiate de Itabira em Belo Horizonte

Foto: Waldemar Sabino

Lúcia Helena Gazzola

Jornal do Brasil (RJ), 24.4.1988 – Nascido como o seu primo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, em Itabira, onde aprendeu a arte de cortar e montar roupas masculinas, o alfaiate Agnelo Drummond, 73 anos, estabelecido há 51 anos nesta capital, lamenta a extinção de sua profissão que, entretanto, ele próprio teima em não abandonar, apesar da idade.

A profissão vem “perdendo terreno e gente” para a indústria de confecção que se estabeleceu nos últimos anos em Minas. Agnelo contempla com tristeza tanto a freguesia quanto os aprendizes, se bandeando para a indústria que paga melhores salários, mas cobra “preços exorbitantes” dos consumidores.” Nem as mulheres estão se interessando em ingressar neste ofício, tradicionalmente masculino.

Todo vestido de branco, com um único detalhe, a gravata, em azul, em meio a uma grande confusão de moldes, tecidos, medidas, manequins e peças inacabadas, Drummond conta que há 30 anos vem ensinando o ofício no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que, segundo disse, montou um dos cursos pioneiros de alfaiataria no Brasil.

Drummond se orgulha de ter conseguido a reabilitação profissional de muitos acidentados, enviados pelo Inamps ao Senac para aprenderem outra profissão. Mas reclama que os jovens não frequentam as aulas o tempo suficiente para aprenderem a trabalhar.

“Quando eu aprendi o ofício, a gente ficava meses em uma alfaiataria aprendendo com o contramestre todos os detalhes da profissão. Para sair um profissional razoável, o aluno tem de frequentar 600 horas de aula no curso, que dura seis meses, para aprender a fazer calças, camisas e blazers. Para fazer paletós, coletes, casacas e fraques, tem de ficar no mínimo um ano. Mas, hoje, ninguém quer fazer isso. Logo que aprendem a fazer calças, os alunos abandonam o curso e vão se empregar nas indústrias, que os procuram no Senai oferecendo bons salários. O resultado é que os profissionais jovens não sabem fazer roupas mais finas e a profissão vai se extinguindo”, lamenta Drummond.

Afirma o velho alfaiate que, apesar de ser rentável a profissão (cobra Cz$ 8 mil pela confecção de um terno e Cz$ 28 mil, quando fornece o tecido) e de o alfaiate trabalhar comodamente, “sem estar sujeito a sol, chuva ou poeira”, nem mesmo seus cinco filhos quiseram seguir sua vocação e herdar sua freguesia que é “vasta”, mas que ele, doente não consegue mais atender.

“Pude pagar os estudos deles, com o dinheiro que ganhei aqui, e três se formaram em engenharia, um em administração de empresas e outro em economia”, contou Angelo Drummond, que se orgulha também de ter “unido a classe”, nos últimos 20 anos em que atua como presidente do Sindicato da Indústria de Alfaiataria e Confecção de Roupas Masculinas de Minas Gerais. “Os alfaiates não brigam mais entre si. E hoje, como há poucos no mercado, só ganha dinheiro quem não quer”, disse Drummond.

Com ele concorda José Miguel, 63 anos, dono da alfaiataria que leva o seu nome, na elegante região da Savassi. “Como não está havendo renovação de profissionais, os que estão na praça estão sem concorrentes, o que nos deixa melhor do que antes”, disse Miguel, que acha que a clientela de roupas sob medida “não tolera roupa pronta”.

[Jornal do Brasil (RJ), 24.4.1988. Hemeroteca da BN-Rio – Pesquisa: Cristina Silveira]

 

 

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